De A a Z, tudo se pode fazer DE OUTRA MANEIRA...

Deméter-Perséfone (à Fernanda Lapa, in memoriam)

Deméter-Perséfone

(à Fernanda Lapa, in memoriam,

evocando as Leituras Maravilhosas)

 

Deméter tinha saudades,

queria a filha que amava ao pé de si.

No seu reino de sombra

quem mandava era Hades

bastava o nome para encher de terror

os mais heróicos…

 

Pediu ao rei

traz-me tu a minha filha de volta

os outros não são capazes…

sem ela não viverei.

Perséfone é o seu nome

dizer o nome

é entregar a vida

ou ma trazes de volta

ou me levas a mim

ficarei longe

não morrerei

mas ficarei para sempre

adormecida…

 

Hades fez-lhe a vontade,

amava aquela mulher,

a Grande-Mãe da terra

mais fértil, mais florida.

Trouxe Perséfone consigo,

partilhariam ambas coroas divididas,

uma feita de luz,

outra feita de treva

e o rei feliz  no meio

fechando essa ferida

 

Yvette Centeno
Lisboa, 7 de Agosto de 2020

E agora digo:

Se fôr para morrer

que seja devagar

não quero morrer já,

quero filhos e netos aqui

ao pé de mim

e se chegar o momento

pois tudo tem um fim

excepto a salsicha que tem dois

como dizia a Fernanda Lapa

e se apressou a partir antes de mim.

 

Yvette Centeno
8 de Agosto, 2020

SONATA DE OUTONO (2007) Foto: José Frade
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Escrito por

Nasceu em Lisboa, é casada, tem quatro filhos. Cresceu numa casa onde havia livros. Leu sempre, leu muito, de todas as maneiras. Doutorou-se em Literatura Alemã, mas interessou-se sempre por História das Ideias, História de Arte e Literatura Comparada. É Professora Catedrática da Universidade Nova de Lisboa, onde criou os primeiros cursos de Tradução Literária. Tem obra de ficção, poesia, teatro e ensaio publicada em várias línguas. Quanto à música, as preferências andam pelo jazz, Mozart e Wagner… Foi recentemente distinguida com a Medalha de Honra do Autor Cooperante pela Sociedade Portuguesa de Autores (SPA).

Últimos Comentários
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    Poemas tão belos só podem ser espelho duma amizade profunda.

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