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Encontro “quase viral”


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Que país somos?


Foi mesmo ali diante de mim. Primeiro vi-a agachar-se como se estivesse a apanhar qualquer coisa do chão, mas depois o seu corpo deixou-se cair e ficou estendido no passeio, imóvel, um braço para cada lado, como uma boneca de trapos.

Olhei em redor, as ruas estavam praticamente desertas. Vieram-me à memória aqueles vídeos que mostravam pessoas contaminadas com este novo vírus, a caírem assim, inanimadas, no meio da rua. Surpreendida a meio do meu passeio higiénico, eu nem máscara tinha. Um pouco a medo, vi que a mulher respirava pausadamente e baixei-me para lhe tomar o pulso e observar as pupilas. Eram duas da tarde e apesar de estarmos em Abril, o sol batia forte e o suor cobria-lhe a pele branca do rosto parcialmente coberto pelos cabelos loiros em desalinho.  Devia ter os seus trinta anos. Tenho que a tirar do sol, pensei. Mas como? Ainda tentei puxá-la pelos braços, mas a sensação do seu peso morto tirou-me logo toda e qualquer ilusão.  De súbito, vinda do nada, uma voz de homem atrás de mim: A senhora quer ajuda? O sotaque africano não enganava. Era um negro, já de cabelos grisalhos, a varrer a rua e a empurrar um caixote do lixo. Se calhar tem o vírus, acrescentou, como quem diz, se calhar é mais prudente não lhe mexermos. Mas entre os dois, lá conseguimos arranjar maneira de chegar aquele corpo inerte para a sombra. 

Era imperioso chamar o 112, mas nem eu nem o Sr. Simão (soube depois o seu nome) tínhamos telemóvel.  Talvez ela tenha um, disse ele, tentando rebuscar dentro da mala da mulher. Mas as luvas de varredor, grandes e grossas frustraram os seus intentos logo à partida. Foi então que surgiu do outro lado da esquina a Dª Teresa, proprietária duma das peixarias do mercado ali do bairro, onde me tinha abastecido antes do confinamento. Então o que é que aconteceu? É preciso alguma coisa? Meia incrédula, respondi: Oh, a Sra. caiu mesmo do céu. Por acaso não tem aí umas luvas a mais? Da mala da Dª Teresa surgiu, como que por milagre, um par de luvas azuis que me permitiu descobrir um telemóvel dentro da mala em questão, chamar o 112 e desvendar a identidade da jovem mulher, que continuava sem dar acordo de si, apesar dos nossos esforços para a reanimar: Irina, 35 anos, natural da Ucrânia.

O 112 demorou cerca de 20 minutos. Nem o Sr. Simão, nem a Dª. Teresa arredaram pé. Depois, cada um de nós foi à sua vida. Alguns metros mais adiante, reconheci a voz e o sotaque: A Sra. quer desinfectar as mãos? O Sr. Simão, pela janela duma carrinha cheia de caixotes do lixo, estendia-me um frasco de álcool-gel. Agradeci-lhe, esfreguei as mãos e continuei a minha marcha a pensar neste insólito encontro.  Solidariedade ou apenas obra do acaso?

Isabel Almasqué
Outubro 2020

Fotos de Manuel Rosário

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Escrito por

Isabel Almasqué, Médica oftalmologista. Ex-Chefe de Serviço de Oftalmologia do Hospital dos Capuchos. Ex-Secretária-geral da Sociedade Portuguesa de Oftalmologia. Co-autora de vários livros sobre azulejaria portuguesa.

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