De A a Z, tudo se pode fazer DE OUTRA MANEIRA...
 

Era tempo de muitas artes…

Nasci, mas ainda hoje não teria noção desse facto não fosse por tanto terem insistido comigo a celebrar um aninho, dois aninhos que agora são praticamente anões. Ah, isto foi antes do século passado ser um cinquentão. Era um tempo de muitas artes sendo a mais difícil aprender a convivência passiva com a ignorância, a injustiça e a fome. Foi a escola primária com as carteiras a cheirar a madeira de sacristia e a tinta vertida de uma garrafa para tinteiros de porcelana a saltar do aparo de aço para os dedos, a escorrer pela palma da mão e às vezes a atrevidamente atingir o pulso. E que dizer do bibe branco que limpava o suor da palmatória!? A praia cheirava a manteiga de cacau, esse bronzeador sofisticado de manhãs escaldantes. As crianças mais pequenas usavam fatos de banho de malha tricotados pelas mães nas noites de inverno; os maiores  – rapazes de cuecão largo, raparigas de sainha a embelezar disfarçando a anca. Viajar na província tinha sabor a couve, a laranja, a pó de batata, a espirro de penas de ave. E o furor com que batia o motor a diesel da camioneta da carreira era invejável e se não nos levava pelos caminhos de Santiago fazia-nos percorrer a rota das gulodices, logo a seguir, famintos e cansados que chegávamos ao destino. Portugal tinha polícia política mas cantava a liberdade; tinha um ditador mas também a catarse do Parque Mayer e no meio do caos organizado só se respeitava mesmo o polícia sinaleiro.

Fotos de Minnie Freudenthal e Manuel Rosário

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Escrito por

Nasceu no Algarve, vive perto de Lisboa em frente ao mar. Foi professora de Inglês.

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