De A a Z, tudo se pode fazer DE OUTRA MANEIRA...
 

Escatologia

Acabei de ler o livro Se Isto É um Homem de Primo Levi, italiano judeu sobrevivente de Auschwitz. Sobrevivente talvez seja uma palavra ingrata. Aquando da sua misteriosa morte em 1987, envolta em rumores de suicídio, Elie Wiesel veio dizer a público que Levi já tinha morrido há quarenta anos atrás, nesse maldito campo de concentração a que – dizemos hoje – Primo Levi sobreviveu. Sobreviveu à arbitrariedade das selecções de extermínio, à doença, à fome e ao frio. Outros, como ele – pouquíssimos – sobreviveram também. Levi conta como um desses sobreviventes, acabado de escapar a uma triagem destinada às câmaras de gás junta as mãos ao peito e geme uma oração de agradecimento a Deus. Esse gesto de demente esperança enche Levi de ódio levando-o a concluir o capítulo da seguinte maneira “se eu fosse Deus, cuspiria para o chão a oração de Kuhn”. O livro de Levi está recheado de peripécias horrorosas, com rigorosos detalhes macabros pendurando ao pescoço do leitor um rosário de pesadelos insuportáveis. Porém é aquela frase de Levi que não me sai da cabeça. A imagem de um Deus prostrado em face do homem hediondo. Um Deus estarrecido, um Deus de poderes aniquilados em face do horror. A tradição filosófica rejeita a ideia de um Deus que cospe para o chão. Deus é da ordem do impraticável, Deus é tudo, Deus é o inefável, Deus é espírito, Deus é Deus, mas Deus não cospe no chão. Porém, o homem que se diz feito à imagem de Deus é, perante ele, uma irreconhecível abominação. Em Seu nome o homem é condenado a morrer e compelido a matar. E, em nome do homem, Deus cospe no chão as orações de uns e de outros. Do alto do céu diz o bom Deus aos homens “eu sou o Deus dos homens, conheço a dor, a paixão e a esperança, o nascer e o morrer; mas vós não sois mais homens, gerastes entre vós a desumanidade, erguei então vossas preces a um outro Deus que vos reconheça à sua imagem”. Deus renega o homem. Já não é importante se o homem tem credo. Até no ateísmo, na negação de Deus haveria esperança, esperança no homem. É Deus quem não tem mais fé no homem. Perdemos o céu. O homem, outrora feito à imagem de Deus, quedou-se disforme, desalmado, não sabemos mais à semelhança de qual imagem foi o homem feito. Chamemos-lhe um desumanismo civilizado. No mundo desumano, existem homens bons, mas já sabemos que a bondade não salva nem mata. A bondade é transparente, é da ordem dos anjos. Num mundo sem céu o bem e o mal movem-se agora sobre outros eixos.

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No discurso que Barack Obama proferiu aquando da cerimónia de entrega do Prémio Nobel da Paz, este referiu precisamente esta impotência da bondade perante o mal. As suas palavras (que na realidade são de Kennedy) são de uma elucidação dolorosa: “Let us focus on a more practical, more attainable peace, based not on a sudden revolution in human nature but on a gradual evolution in human institutions.” O descrédito no homem leva a concluir que só nos podemos salvar criando instituições que impeçam o homem de fazer mal ao homem. No fundo, a esperança num futuro melhor não pode ficar refém da esperança no próprio homem, porque o homem é a própria ameaça ao futuro. O homem mau deve pois criar instituições boas para que destas se faça depender o futuro do homem. Este homem renegado de Deus apresenta-se-nos tal e qual Mefistófeles se apresentou a Fausto. “Quem és tu” – perguntou-lhe Fausto; ao que o diabo respondeu “sou parte da força que quer o mal mas que acaba por fazer o bem”. Sob este pacto faustiano o homem civilizado é compelido a fazer tréguas consigo mesmo em nome da sobrevivência. Talvez daqui a uns tempos, na aurora de uma outra era, se venha a dizer (tal como se disse de Primo Levi) que aquilo que julgámos que sobreviveu já estava morto há muito tempo. Vivemos sem dúvida uma era escatológica. Existem, como é sabido, duas entradas ambíguas nos dicionários para escatologia. Uma refere-se às teorias sobre o fim do mundo e da humanidade; a outra refere-se ao estudo dos excrementos. Esta esquisita ambivalência do termo parece hoje desfazer-se diante do Deus que cospe no chão, diante do homem que não é ainda capaz de dar paz a Deus.

Ivo Lima Carmo
Berlim, Janeiro 2015

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Fotos de Minnie Freudenthal e Manuel Rosário

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Escrito por

Nasceu em Lisboa em 1979, estudou Filosofia e vive em Berlim, onde trabalhou como jardineiro, vendedor de revistas e empregado de mesa. Em Portugal foi distinguido em 2008 no Concurso Jovens Criadores e em 2012 venceu o Prémio de Ensaio Revelação da Associação Portuguesa de Escritores com a obra Do Paraíso. Autor do livro O Longe Oeste, Na Senda do Sete-Estrelo pela editora Epubli.

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