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Estamos ambas mais velhas

Estamos ambas mais velhas, mas a mim o tempo enrola-se enrugado junto ao corpo como véus que embelezam. A ela mudou-lhe o perfil num momento trágico.
Sinto-me em casa na sua presença.
Com ela sem ter que pensar movo-me, sem ter que fugir estou protegida, sem ter que procurar encontro-me nela e em mim.
Na rua ouço a voz dela em todas as línguas deixando os desentendidos procurar no gesto o sentido.
É fácil sentir a alma voar nas vistas que nos pregam ao céu imenso. Lá em baixo mergulhamos densos uns nos outros. Ela aproxima, ela afasta pulsando ao ritmo dos corações.
Ambas temos os nossos esconderijos onde guardamos do vento a alma triste para que se não lhe tire mais a pele.
A noite despe os seus largos passeios de onde posso parar e olhar as estrelas entre as sombras geométricas de prédios iluminados.
Ali cresci adulta todas os desafios a que tive direito.
Ali sinto ainda o conectar de ideias, um mega nó na rede humana.
Que o tempo a guarde, que as marés não a engulam, que se mantenha bela no seu contraste.
Eu por mim sonho-a para sempre.

Alice Bento
Maio, 2014

estamos ambas mais velhas
estamos ambas mais velhas
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estamos ambas mais velhas
estamos ambas mais velhas
estamos ambas mais velhas
estamos ambas mais velhas
estamos ambas mais velhas
estamos ambas mais velhas

Fotos de Minnie Freudenthal e Manuel Rosário

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Escrito por

Nasceu em Timor, filha de administrativos coloniais, vive agora em S. Francisco, Califórnia. Iniciou os seus estudos de História em Coimbra que não chegou a terminar. Bibliotecária em Berkeley. Casada com Anton Svoczek, Engenheiro mecânico, originário da Republica Checa.

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