De A a Z, tudo se pode fazer DE OUTRA MANEIRA...
 

Estórias do vírus

A mulher olhou meigamente o pássaro que lhe sorria e debicava um pedacito de pão. Com espanto vê chegarem uns jovens saídos a correr de uma carrinha branca, como a que a transportara da última vez que ficara adormecida no banco do jardim. A testa quente e a pneumonia obrigaram-na a estacionar dez dias num serviço de pneumologia de um hospital da cidade. Tinha gostado do convívio com os médicos, enfermeiros e colegas de quarto com quem trocava algumas palavras e chegou a imaginar uma vida assim, calma, num lugar parecido àquele, limpinho e branco, com a comidinha a horas

Pela voz pareciam ser novos, os rapazes da carrinha branca, dado não lhes poder ver a cara por vestirem umas roupas de astronautas. Pareciam do outro mundo o raio dos moços, que a olhavam surpreendidos, talvez espantados pelas suas roupas usadas. Estava calor e a mulher vestia uns trapos do antigamente de cor cinzento e um casaco quente de pele falsa. Sempre se relacionara bem com os animais e desde nova rejeitava peles de animais de verdade, tanto para aquecer como para embelezar, tal como as que a sua Senhora punha quando ia ao fado com o patrão. Era uma vez por mês. Nesse dia punha um batom vermelho, um perfume forte o casaco de bichos ou uma raposinha com uns olhos de vidro sobre os ombros e no dia seguinte ao pequeno-almoço, sorridente, cantarolava.

 Os animais eram mesmo a sua perdição desde catraia, sempre muito amigos e sem distinguir cor ou cheiro, dado que ultimamente a sua cor era de um branco amarelento e as unhas bem pretas na zona onde estavam irregularmente roídas. Não viam tesoura pois claro, nem se lembrava onde guardava a dita cuja, há muito tempo. Se calhar era aquela coisa do Alzheimer ou lá o que é. E o mesmo se passava com o banho, tinha medo de cair e se afogar na banheira. Uma vez pusera uma faca no cesto da roupa, um par de cuecas no saco do pão, um sabonete na roupa suja e o telefone no frigorífico. Agora já não tinha nada dessas mordomias e o prazer que ainda sentia era poder sentar-se no jardim e apanhar um solinho na cara, brincar com os passaritos e pensar. Adorava pensar na vida, na infância, no campo e nas searas onde escondida recebeu os primeiros beijos de amor, a bem dizer do amor da sua vida, que depois do primeiro encanto logo se evaporou e arranjou namoro a sério com uma outra, mais rica e apessoada, lá da terra.

Os rapazes da carrinha ofereceram-lhe uma máscara branca e disseram-lhe que a pusesse e fosse para casa. A mulher não percebia para que serviria a dita máscara e como prova de agradecimento colocou-a no cabelo cinzento, desalinhado à laia de chapelinho, parecido aos que alguns homens usavam na Belmonte da sua infância, antes de vir servir gaiata para uma casa de uns senhores finos que viviam na Lapa. Teria dezassete, dezoito anitos, e também usava uma farda e um chapelinho branco para não deixar cair os cabelos na comida, cogitava ela. Mas as outras raparigas mais velhas do que ela, que trabalhavam na casa, também punham um parecido mesmo quando faziam a faxina.

Isto contava ela aos rapazes mascarados, que eram delicados e lhe falavam com bons modos: – Agora já pode ir embora minha senhora. Precisa de algo mais? Sente-se bem? Sabe que estamos em Estado de Emergência. Sabe o que isso é?

– Depois por cá fiquei até ser uma senhora grande, de 63 anos!

Durante esse tempo conheceu a vida como se costuma dizer. O Senhor, gostava das raparigas novas. Um dia ouviu um barulho estranho ao lado do seu quarto, uns objectos a cair no escuro, acendeu a luz, abriu levemente a porta e viu-o todo nu, parecido a um aranhiço mas feito de carne.

–  Tchiuu,  Sabes que o meu pijama é a minha pelzinha, por isso não digas nada, vim só beber um copo de água à cozinha, e já agora podes fazer-me um bocadinho de companhia? Diz-lhe o patrão E a modos eu explicação continuou:

-Estou com insónias, o jantar não me caiu nada bem, temos de falar com a cozinheira para por menos pimenta no assado.

Depois empurrou à força a porta do quartito que era nas traseiras da mansão, e foi quando se fez mulher a sério: – Não contes nada às senhoras, nada do que aqui se passou, nem à minha sogra, nem à Sra.D Etelvina. Vê lá se queres que te mande embora num ar, rapariga!

– E sei bem que não tens para onde ir. Ou queres ser uma dessas que andam praí na rua?..

Depois uma obesidade estranha foi crescendo.

 – A rapariga come que nem um abade dizia a Senhora, é demais! Lá na terra não tinha esta abundância e pronto é fartar vilanagem! Aqui parece uma frieira.

Um dia as dores de barriga começaram a sério.

 -Foi menina!

Lavaram-na, vestiram-lhe um fatinho de renda e puseram-lhe uma toca branca parecida com a máscara que os jovens lhe tinham dado mas em ponto pequenino e com um rendilhado à volta. Por que se fora lembrar dessas coisas? Pensamentos maus, respondeu em voz alto.

Continuou a sua história para os anjos brancos que a ouviam estupefactos.

– Oiça lá, ainda não percebeu que tem de recolher a casa, não sabe que não pode estar na rua, que é uma pessoa de idade, se calhar doente e que é perigoso com o vírus lá fora a rondar? Sente-se bem? Tem alguém de família com quem se possa contactar? Nós levamo-la a um hospital!

Mas ela continuava: – A minha senhora não conseguia ocupar, sabem? Era estéril e eu tive de lhe dar a minha menina. Amamentei-a 8 meses. Era um regalo vê-la crescer. Depois a vida foi andando, ao fim de vários anos o patrão teve a sorte que merecia e graças a Deus apanhou um cancro lá no tal sítio, na próstata, mas dos maus! E ficou sem poder ir às meninas que iam vindo da quinta para dar uma ajuda. Ele era como na canção, “depois do primeiro assombro logo o corpo fica farto” e eu agradecia aos santos por ele ter começado a procurar as outras cachopas e deixar de fazer em mim aqueles movimentos rápidos e dolorosos. Fiquei descansadinha de todo e em paz logo depois de a menina nascer. Acabou por morrer ao fim de alguns anos., já eu mulher feita e bem-feita, Deus escreve direito por linhas tortas!

– Juntei uns dinheirinhos e comprei uma casita, sem ninguém saber, perto do jardim.

Assim sempre via a filha que era a sua cara chapada, igualzinha a ela tanto em miúda como em graúda, mas foi com os outros que conviveu. Ela, a verdadeira mãe, era quem servia à mesa, vestida a rigor e bem fardada com a tal grinalda branca na cabeça parecida à máscara, era ela quem levava as bandejas com os acepipes aos colegas da faculdade nos aniversários da menina e quem lhe fazia a cama todos os dias e lhe preparava o pijama. Pouco a pouco começou a conviver com os bichos, com os passarinhos com um ou outro cão abandonado a quem levava os restos dos jantares lá da casa. Quando a filha casou com um doutor de Direito foi de vez para a sua casinha. E todos os dias visitava o jardim onde a levara a passear em criança, ela de vestidinho fino e sapatos de verniz e ela fardada com o chapelinho branco na cabeça.

Naquele dia sentira um silêncio estranho na cidade e no jardim ao lado do cemitério dos ingleses, um silêncio de medo, não se via vivalma mas ela continuava no seu banco a conversar com os pássaros até que chegaram os rapazes de fato branco. Pensou que seriam anjos disfarçados, estranhou ouvir-lhes falar com voz doce: -Tem mesmo de ir para casa minha senhora. Há um vírus à solta muito perigoso, não ouviu falar? Não ouve as notícias?

Ela gostou que lhe chamassem minha senhora e não o seu nome próprio, Dulce! Em voz alta, ou Oh rapariga! E do tratamento por você. Se calhar vieram buscá-la, porque chegara a sua vez, tudo parecia condizer, o tratarem-na com deferência e com bons modos, uma espécie de recompensa divina, pensou. Levantou-se com uma dignidade estranha no olhar, sentiu um aperto forte no coração como um elefante a pesar-lhe em cima que nem mesmo quando se deu aquela revolução dos cravos sentiu nada igual, atirou o chapelinho máscara para o chão e em voz alta bradou:

– Levem-me para onde quiserem, mas sem este quico ridículo na cabeça, eu vou, eu vou embora, mas porque eu quero.

– E porque sou livre, não porque me obrigam.

Tocou a sirene e a ambulância seguiu.

Leonor Almeida
Maio, 2020

Fotos de Manuel Rosário

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Escrito por

Maria Leonor Duarte de Almeida é oftalmologista em Lisboa - cidade onde nasceu. Mestre e Doutorada em Bioética leccionou na Faculdade de Medicina de Lisboa como Professora Auxiliar em Oftalmologia. A escrita tem tido uma presença na sua vida, mas somente em 2002 se expôs como escritora. Publicou cinco livros de ficção, um livro de ensaio sobre Autonomia em Bioética, em 2008, e viu o seu trabalho reconhecido pela crítica, recebendo o Prémio Revelação da SOPEAM, sendo ainda distinguida como premiada em Novos Autores Portugueses, pelo do IPLB em 2002. É membro da Associação Portuguesa de Escritores.

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    Desgraçada realidade muito bem contada, incisiva e doce. Gostei muito, Leonor, bravo!

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