De A a Z, tudo se pode fazer DE OUTRA MANEIRA...
 

O fim da memória

Entre filmes antigos que revejo e os novos que vou descobrindo, tropecei recentemente em dois que resvalam para a debilidade mental e com uns toques de pretensa irreverência que os tornam penosos de seguir. Mas eu aguentei e cheguei ao fim de cada um deles.
Last Vegas e Meet the Fockers.
Um é sobre um grupo de amigos na terceira idade que resolvem ter uma última surtida lúdica em Las Vegas. O outro é sobre um jovem casal, reunindo os respectivos pais antes das núpcias, com as peripécias que daí resultam. Personagens caricaturais em imbróglios forçados e inverosímeis, à cata do riso fácil do espectador.
Enfim, até aqui nada fora do comum.
Mas o que é inquietante e intrigante, é a participação nestas películas de actores maduros americanos, responsáveis por alguns dos melhores filmes dos últimos 50 anos: Robert de Niro, Morgan Freeman, Dustin Hoffman, Barbara Streisand, Michael Caine, Jane Fonda…
O que leva cada um deles a participar nas palhaçadas? Dinheiro? São filmes B para consumo das famílias, o contrato não paga uma pequena fracção do que a Liz Taylor recebeu pela Cleopatra. E todos eles devem ser ricos, após carreiras de extraordinário sucesso. Todos devem ter uma extensa rede de contactos sociais, o que em princípio deveria garantir uma reforma em beleza.
Dinheiro e amigos, que mais é preciso?
Mas a dignidade que advém do facto de serem consagrados e célebres, não é obstáculo para a participação em filmes débeis e quase degradantes.
Mistério.

Outro exemplo

No mundo do show-business não se pode descer mais baixo do que actuar nos casinos das reservas dos índios. Para se chegar à sala de espectáculos, temos que atravessar aáreas cavernosas, com milhares de luzes coloridas e ao som de campainhas que anunciam os prémios, onde centenas de reformados a fumar, bombeiam continuamente essa invenção abstrusa que é a slot-machine. As vestimentas são surreais, nos pés alpercatas, todos tatuados…vi uma mulher em robe de banho e com rolos na cabeça, a jogar numa das máquinas.
Recentemente o Bob Dylan actuou num desses buracos. Lá fui vê-lo e gostei. Está velhote mas ainda se mexe bem, e a música não era má.
A Joan Baez estava anunciada para breve.
E muitas mais estrelas do espectáculo dos anos sessenta e setenta andam por aí a trabalhar sem parar, numa estranha inércia de movimento laboral.

Elucubração

Da cibernética sabemos que o todo é maior que a soma das partes, com propriedades emergentes únicas a cada sistema e com aumento geral da complexidade. O público é também um todo, soma de milhões de partes que são os consumidores, milhares deles inteligentíssimos. Mas aqui, estranhamente, o todo reduz-se a uma massa humanóide informe, com uma educação de quarta classe, a maturidade sexual dum adolescente masculino, a capacidade de atenção e concentração duma criança de 4 anos.
Mas o que mais caracteriza esta gente é a falta de memória. Daí o sucesso dos remakes, das franchises, das sequelas. Realizar e produzir o Padrinho número três (que xaropada), quando para comparação temos acesso facílimo ao número um (uma obra prima), é facto para mim sem explicação. Espremer a marca registada até à última gota. Uma venalidade esmagadora que banaliza um marco do cinema do século vinte e perpetrada pelo próprio Coppola!
E entretanto os nossos actores vão fazendo filmes relaxantes e inconsequentes, ou actuando em palcos decrépitos com velhos amigos… o que também é uma forma de reforma. Mas preservar a reputação e dignidade profissional do passado, é preocupação que aparentemente os intervenientes não têm e que o público não merece. Ao diabo com o passado. Aqui e agora é o que conta.
E depois de vermos o De Niro num dos filmes supracitados, a memória do actor no Taxi Driver ou no Raging Bull esvanece-se lentamente.
O espectáculo e a ficção costumavam referir-se a uma realidade envolvente, exterior. Talvez agora sejam o espectáculo e a ficção a realidade em si, não tendo o público um equipamento conceptual que lhe permita abarcar o que costumava ser o real, o exterior ao show.
E o que todos eles querem, o Niro, o Dylan, e os outros é talvez simplesmente continuarem a existir na nova realidade.
Após anos a ver os filmes dos nossos célebres actores, de quem aprendemos a gostar, ficamos desconcertados e um pouco melindrados com o tratamento recebido. É que cada um de nós também faz parte do público.
Tudo é intrigante. Provavelmente a enorme separação entre o universo de seres intelectualmente sofisticados, representado por estes actores, e a massa pulsátil e informe que é o grande público, leva o De Niro e amigos a estas excursões à selva da alarvidade popular, como diversão de reformados.
É isso, todos eles estão de facto reformados, e estes filmes são apenas o equivalente às mesas de velhotes a jogar cartas que se vêem no verão por todo o lado, nas pracetas das aldeias e vilórias mediterrânicas.
Mas ninguém nos obriga a ver estes filmes.
Fiquemos pelo passado. Hoje vou ver A Festa da Babette.

 

José Luís Vaz Carneiro
Tucson, Novembro 2018

Fotos de Minnie Freudenthal e Manuel Rosário, tiradas em Paris, em Batignoles, um bairro muito funky que está a ficar na moda.

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Escrito por

Médico Hospitalar (EUA)

Últimos comentários
  • Cher Zé Luis, merci pour cet article. Même si vieillir est un naufrage, certaines personnalités célèbres du showbiz le vivent dans la dignité (Joan Baez, Bob Dylan, Leonard Cohen et quelques autres) et d’autres, plus narcissiques, dans l’indignité. Ces derniers ont la mémoire courte, sont égocentriques et opportunistes., D’autres ont la mémoire longue et pensent davantage au monde et à l’avenir de l’humanité qu’à leur petite personne et à leur compte en banque. Les uns contribuent à augmenter le chaos et à obscurcir encore davantage l’horizon, les autres nous aident à y voir jour et à résister. Je t’embrasse amicalement. Eliane Perrin

  • O regresso dos velhos é forma de resistência à velhice, melhor ou pior sucedida…
    Ou então pura falta de dinheiro…e aí tudo muda de figura. Como viver sem dinheiro?
    A velha piada portuguesa:
    é melhor ser rico e saudável do que pore e doente….

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