De A a Z, tudo se pode fazer DE OUTRA MANEIRA...
 

Aqui, hoje, ninguém julga!

Aqui, hoje, ninguém julga!

As gargalhadas soltam-se entre os papelinhos coloridos.
À entrada, a bruxa segura com o dedo o céu e parece dizer: aqui, hoje, ninguém julga!
Podemos rir dos outros, esborratar a tristeza em baton escarlate ou enfeitar as rugas com sonhos de infância.
Aqui o palhaço não está triste. A fada espanta-se na magia espessa que nos envolve a todos nas ruelas da cidade antiga.
Cádiz abre-se curiosa a um despojar humano. Na noite longa de sábado, jovens de todas as falas descem à Praça da Catedral. Na mão, garrafas de líquidos mágicos fundem todos numa massa só. O som vibrante das vozes sobe ao céu da praça aberta até aos anjos que, quem sabe, também trocam de máscara e se misturaram com os demais.
De amanhã, a ordem volta às ruelas lavadas, varridas e desinfectadas.
Pela tarde de domingo, o rodopio das Chirigotas anima de novo a cidade. Velhos e novos colam-se em novelo às palavras picantes, às graças políticas, aos trajes coloridos e às expressões pantomineiras de cada grupo.
A fortaleza marítima de Cádiz lembra-nos o papel desta cidade nas idas e vindas das gentes que ao longo dos tempos aqui se cruzaram. Podemos imaginar os trajes fenícios, as togas romanas, mas sobretudo um olhar acolhedor e generoso à troca, à diferença e ao desarrumo das festas que limpam a alma de uma Europa à procura de caminhos.

Carnaval de Cádiz

E se às festas roubássemos o espírito, o que faríamos nas festas? Já várias vezes me apeteceu fazer isso mesmo, apropriar o dia a dia daquilo que vi, senti, ouvi e sonhei em dias de festa. A chegada a Cádiz pelas suas avenidas novas em nada previa as emoções que correriam na rua. Todos, mas mesmo todos, desde os mais jovens aos de idade maior ou maior idade participaram na atmosfera que foi crescendo, que foi colando o dia à noite, que se foi pegando a nós não como um disfarce, mas como a nossa própria pele. Naquelas ruas senti que todos, finalmente, eram o que desejavam ser, todos e qualquer outro dia do resto das suas vidas: alegres, brincalhões, ridículos e sobretudo sem medo do outro, o desconhecido, aquele que olhamos com desconfiança no resto do ano e a quem não sorrimos com medo, medo do mal entendido, medo de quê? E assim, deslizámos uns nos outros mais seguros, mais inteiros, quem sabe, mais nós?!Uma das agradáveis surpresas do Carnaval de Cádiz foi a ausência de música amplificada, deixando sobrar para as gentes os sons que vibraram nas paredes da cidade alegre. E é no silêncio electrónico das ruas que o verdadeiro contexto das chirigotas se expande, vestidos nos seus trajes divertidos, estes já tradicionais grupos de “trovadores”, atraíam grupos de pessoas a seus pés, absortos nas graças dos seus cantares politico – sociais. Só parámos para comer, para dormir, para nos extrairmos um pouco e de novo nos deixarmos mergulhar naquele fluido – humano – mar .

Minnie Freudenthal
Março, 2014

Galeria de Imagens

Fotos de Minnie Freudenthal e Manuel Rosário

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Chirigotas são agrupamentos musicais que apresentam temas humorísticos pelas ruas durante o Carnaval. Em Cádiz, fazem-se competições todos os anos, onde o disfarce cómico dos músicos e a mordacidade do tema contam mais até do que a própria música – geralmente simples e inspirada nos estilos populares andaluzes mais

A menina desceu o degrau da porta de casa com um saltinho abrupto, as saias brancas rodadas e compridas volteando; na cabeça, entre os caracóis castanho-claro, uma grande flor azul-eléctrico com um botão vermelho-vivo no meio; em torno aos ombros, um xaile brilhante; nas faces, uma maquilhagem que, pelo excesso,

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Escrito por

Alice Minnie Freudenthal, médica Internista pelo American Board of Internal Medicine e Ordem dos Médicos Portuguesa. Áreas de interesse; neurociência, nutrição, hábitos e treino da mente. Curso de Hipnose clínica pela London School of Clinical Hypnosis. Curso de Mindfulness Based Stress Reduction. Palestras e Workshops de diferentes temas na área da neurociência para instituições académicas, empresas e grupos.

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