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How to Grow a Human

HOW to GROW a HUMAN-Adventures in who we are and how we are made
Philip Ball 2019. University of Chicago Press, 370 pgs

É um livro sobre genética experimental e aplicada. Conhecimentos básicos de biologia celular ajudam à compreensão. Deixo aqui algumas pérolas colhidas da leitura. Isoladas, precisam da informação unificadora que só o livro fornece. Mas para apreender isso, só comprando e lendo o livro.

O tecido cutâneo do ombro do autor, colocado num meio nutriente, resultou num agregado de neurónios do tamanho duma lentilha a que chamaram mini cérebro. Do mesmo modo células hepáticas, renais e da retina podem ser cultivadas, dando organoides similares. Parece ser possível criar qualquer parte dum organismo a partir de outra parte do mesmo.
Parece ser mesmo possível duplicar um organismo a partir duma parte do mesmo.

Inicialmente, a transformação de um tipo de células somáticas diretamente noutro tipo foi feita, usando fatores de transcrição. Hoje em dia, o mesmo processo pode ser obtido com moléculas sintéticas que mimetizam as proteínas naturais envolvidas no processo.
E o resultado podem ser células que não existiam antes na natureza.

O uso de animais, com vista a desenvolver órgãos humanos para transplante, é uma tecnologia em desenvolvimento.
As células pluripotentes humanas introduzidas em animais, sem os genes necessários para o desenvolvimento de determinado órgão, conseguem desenvolver o órgão em questão, usando os genes do dador.
Quando o recipiente é um rato, sem genes geradores dum fígado, o resultado do transplante é a formação dum fígado e duma vesícula biliar, apesar dos ratos normais não terem vesícula biliar.

É possível usar Células Estaminais Pluripotentes Induzidas (CEPi), geradas a partir de células somáticas para induzir nas mesmas a criação de células Germinais Primordiais (Primordial Germ Cells, PGCs), e finalmente gâmetas viáveis, tanto Óvulos como Espermatozóides. 
Ao fertilizar um destes óvulos, deixando-o evoluir até ao estadio de blastocisto, podemos colher uma Célula Estaminal Embrionária (CEE) e recomeçar um novo ciclo, com um novo óvulo, nova fertilização e assim por diante. Uma sucessão de gerações de ratos sem nunca passar por um rato adulto.
E agora… (rufar de tambor) … pode-se repetir todo o processo e quando um óvulo é obtido, fertilizá-lo com espermatozoides do mesmo ser vivo, obtidos da mesma maneira a partir de CEPis. (Uniprogenitor gerando um Unibébé). 

E que tal obter gâmetas a partir de resíduos celulares deixados em copos que alguém usou para beber?
Isto não é só brincar com Deus. É brincar com todo o elenco celestial de todas as religiões do mundo!
Além dos problemas éticos e legais, outros se levantam tais como a definição de pessoa humana e a incerteza acerca da morfologia que um embrião teria ao crescer fora do útero, etc.

E ainda temos a Pre-Implantation Genetic Diagnosis (PGD): Fertilizam-se 300 óvulos. Analiza-se o genoma do embrião resultante de cada um deles. Põem-se à escolha do cliente antes da implantação no útero.
Exemplo:
Embrião 223:
Sexo Masculino
Sem doenças precoces graves, mas recessivo para a fenilcetonúria
Maior possibilidade de diabetes e cancro do cólon do que a média da população
Menor possibilidade de asma e autismo do que a média da população
Olhos escuros, cabelo castanho claro, calvície de padrão masculino
40% de probabilidades de obter mais de 50% nos testes académicos
Presumo que depois da compra não se aceitem devoluções…

Em 1997, o núcleo duma célula mamária duma ovelha foi transplantado para um óvulo desnucleado de outra ovelha e o resultado foi a célebre ovelha Dolly. O nome advém da origem mamária do núcleo dador e do nome da cantora Dolly Parton. A Dolly (a ovelha) morreu 6 anos depois com tumores e artrite.

Os cientistas estão preocupados…
As possibilidades pendentes levaram os investigadores japoneses a aconselhar extrema cautela antes das seguintes experiências:
1-Modificação do cérebro dum animal por implante de células de origem humana, que possa alterar as capacidades cognitivas do hóspede e levar a comportamentos humanóides
2- Implantação de gametas humanos, óvulos e espermatozóides funcionantes, num animal, podendo levar à fertilização do gameta humano com gameta animal.
3- Criação genética de animais com fortes características morfológicas humanas (aparência, linguagem).
Os supracitados cientistas concluem a lista com a tranquilizadora asserção de que, na opinião deles, nada disto será algum dia possível. Mas então porquê aconselhar extrema cautela?
Mas o facto é que em 2013 células progenitoras do cérebro humano (gliais) foram enxertadas em ratos recém-nascidos. Quando cresceram, estes ratos manifestaram uma melhoria na capacidade de resolução de tarefas e problemas que lhes foram apresentados.
O que poderia possivelmente pensar um porco, com células humanas enxertadas no seu cérebro?

Um fait divers a propósito destes temas.
Nos anos 60 Hayflick demonstrou que células retiradas dum mamífero não podem continuar a dividir-se para além de 30-70 ciclos, antes de degenerarem e morrerem (apoptose).
Mas em 1951 células retiradas dum cancro uterino duma mulher, chamada Henrietta Lacks, e colocadas num meio nutritivo, continuaram até hoje a proliferar alegremente. Estas células HeLa têm sido extremamente úteis para a ciência e hoje em dia calcula-se que um total de 50 milhões de toneladas existem em todo o mundo.
Precauções para evitar a contaminação de outras culturas celulares devem ser rigorosas. De certa maneira uma parte de Henrietta Lacks é eterna e tem estado ao serviço da humanidade. Mas após tanta proliferação e com o acumular de erros genómicos, as células HeLa tornaram-se aberrações genéticas com anomalias cromossómicas enormes, como mostrou a sequenciação do genoma duma delas. As células HeLa, de certa maneira já deixaram de ser humanas, o que põe em questão a sua utilidade para a medicina.
Mas a capacidade de multiplicação ad infinitum está intacta.

José Luís Vaz Carneiro, Tucson, Janeiro 2020
solipso52@aol.com

Fotos de Minnie Freudenthal e Manuel Rosário

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Escrito por

Médico Hospitalar (EUA)

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