De A a Z, tudo se pode fazer DE OUTRA MANEIRA...
 

Isto de estar vivo…

São sete da manhã.
Gosto de ir à janela espreitar o primeiro eléctrico 28 a passar na Sé. Vai repleto de lisboetas que vão para o seu trabalho. Ou antes, gente cansada de tanto ser despejada para alojamento local, gente cansada de fazer pastéis de nata, cansada de responder em inglês onde fica o Castelo, onde fica a Sé, a Casa dos Bicos, o Sto. António, onde se come bacalhau, para que lado é o Terreiro do Paço, e mais isto e mais aquilo…
Gente cansada e triste por ter perdido a sua cidade.
São isso, os lisboetas.

Sete da manhã, eu vou arrumando a vidinha em caixas. Ouvem-se as rodinhas das malas dos turistas a passar na rua. As primeiras rodinhas da manhã…
O dia continuará ao som das rodinhas.
Em frente, uma casal de franceses quer à força meter conversa comigo, quando vou à varanda recolher a roupa da corda. Ah, se fosse há uns anos até gostava, mas já não dá.
Bonsoir e chega. Já foi tempo…
Sinto-me lesada, derrotada, vencida.
E vou desfazendo a casa. Tirando as fotografias das molduras. Tentando encaixá-las em álbuns que vão para caixotes que tenho esperança que um dia as netas abram.
Sinto-me uma traidora com quem aqui esteve comigo durante estes quarenta anos. Estas pessoas, que dentro das suas molduras, me acompanharam.
Eles já morreram. E agora, eu mato-os outra vez.
Traição, uma grande traição .
Eles ainda viviam aqui.
Consola-me pensar que os meus irmãos os conservam nas suas salas. Mas a Avó do Brasil, essa é que morre mesmo de vez com esta casa. Ninguém tem fotos dela, ninguém lhe deu a honra de ser representada numa sala. Havia outros bem mais importantes do que ela. Essa Avó morava em S. Paulo, mas vinha muito ao Porto, para ver os netos. Um dia foi embora e nunca mais voltou, já era bastante velha e lá morreu. Guardo com ternura as caixinhas que me trazia, feitas de várias madeiras brasileiras. Gostava muito de as ter expostas, olhar para elas. Também são para arrumar, para ir para um armazém. Nunca mais as vou ver. Era uma avó querida, gostava de mim, num tempo e numa família em que não se usava gostar das crianças. No resto da família usava-se mais ralhar e ser desagradável , o que chamavam dar educação. Estive em S. Paulo uma vez, e lá, os netos brasileiros também não tinham fotos dela. Ela morrerá definitivamente quando eu guardar, no fundo de um caixote, a sua foto em cartolina com o seu rosto recortado, como outrora as fotos das actrizes do parque Mayer. Foto que eu salvei um dia, pois era considerada o cúmulo da piresa. Ela era muito rica, mas não era gente igual a nós.
Arrumo as fotos da infância. Separo-me de vez da infância, com todo o passado. Fico sozinha no agora.
Despida do que fui, afastada dos que amei e me amaram.

As rodinhas dos turistas fazem de música de fundo, e eu vou metendo os meus pertences, tudo o que amei em caixotes de bananas. Os primeiros brinquedos da minha filha, as cartas que os meus pais me escreviam para o colégio interno quando eu tinha oito anos, os cartõezinhos que a minha filha fazia na escola para me dar no dia da mãe «Com um beijinho da sua filha que a adora».
O xaile em crochet rosa! O xaile feito pela Geca, a criada dos meninos, a nossa criada, minha e dos meus irmãos. O xaile que a Geca fez, já muito doente (morreu pouco depois) quando a minha filha estava para nascer. A pessoa que mais gostou de mim. A dedicação total sem pedir nada em troca.
Este xaile de crochet representa o amor absoluto.
Desfazer o armário dos livros, os meus livros…quantas vezes foram os meus únicos amigos! Esse armário é a capela onde tenho guardado o que tenho de mais sagrado. Vão para caixotes que serviram para o Sr. Carlos da mercearia trazer as alfaces pela manhã.
A morte da matéria que nos liga ao mundo, a matéria identitária da nossa personalidade, dos nossos afectos, das nossas raízes, da nossa cultura. Essa costuma ser arrumada, costuma acabar depois de nós. Mas para caso de projecto de unidade hoteleira, acaba antes.

Agora o barulho das rodinhas engrossou com um grupo de turistas espanhol, procurando um prédio de alojamento local na rua. São alegres, falam muito alto, estão contentes por andarem a passear em família. Voltarão para o conforto seguro dos seus lares. E eu estou de saída de minha casa, para que outros como eles, um dia, possam vir para aqui e andarem contentes e felizes a passear em família.
Os lençóis e as toalhas bordadas à mão,  de Viana, com que a minha mãe me compôs o enxoval. Alguns nunca usei. Afinal vivi sempre sozinha, muita coisa do enxoval não utilizei. Estiveram guardados cinquenta anos. Não serviram para uma vida glamorosa para a qual estavam destinados.
Os vasos, as minhas flores, o meu entretém. O que farei sem eles ? As pratas e pratinhas. O samovar de prata que era do meu bisavô. Résteas de um tempo de que derivo, de uma sociedade séc. IXX retardada, que eu ainda conheci. Nos anos da minha avó servia-se o chá nesse samovar. As louças, o resto da Companhia das Índias dos Natais.
Natais, Natais leva-os o vento.
Faço a ligação entre as diferentes épocas.
A minha Mãe conheceu os seus avós, meus bisavós. Mas eu já não. As minhas netas já não conheceram a minha Mãe. Eu irei conhecer os filhos delas? Com certeza que não. Esta ligação traz-me melancolia e incerteza.
Não cheguei a nenhum conhecimento acerca da natureza da vida. Por isso resta-me a matéria, os objectos, as casas, as fotografias, os azulejos, as pedras, as ruas…
As ideias espirituais não me colam, já tentei aceitá-las, mas…Julgo ser feita de material igual às frigideiras não aderentes.
As ideias espirituais são anti matéria. E a matéria, essa ainda conserva um certo conhecimento.
O meu corpo é o fio condutor que veio de uma época para outra. A matéria conserva um espaço, mantém o tempo antigo metido num espaço.

Tocam à campainha.
É o carteiro, a única pessoa, tirando os ladrões, que me toca à porta.
Arrasa-me a caixa do correio com cartas deprimentes. Infernais extractos bancários, vêm-me dizer o que sou.
Obrigam-me à reflexão do meu nulo sentido da vida.
E o som das rodinhas das malas dos turistas continua…

Manuela Carona
Dezembro, 2019

Galeria de Fotos

Fotos de Minnie Freudenthal e Manuel Rosário

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Com o seu cabelo loiro arranjado, pequenas pérolas nas orelhas, sempre com roupa de cores claras a condizer, a Adriana era uma moradora atípica da Alfama. Nasceu na Estrela, frequentou um colégio de freiras de meninas finas. O pai tinha posses. Era talhante, dono do conceituado talho francês. Algumas vezes, com

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Escrito por

Actriz, nasceu em 1947, natural do Porto, vive em Alfama

Últimos comentários
  • O passar do tempo, os mortos do nosso passado, a mudança de casa, a bastardização da Lisboa turística…..
    Não é possível texto mais deprimente.
    Obrigado Manuela

  • Obrigado José V. Carneiro, pena ser tão deprimente…

  • Li o seu texto, Manuela,.

    Arrepiante e maravilhoso, tudo ao mesmo tempo. Um testemunho muito importante destes tempos modernos, nós lisboetas despojados de tudo e da cidade.

    É um prazer poder partilhá-lo. Tive de me desfazer da casa onde cresci. 50 anos de pai e de mãe. Por diferentes que sejam as nossas experiências, revejo-me em tantas palavras suas, na solidão também. Ainda temos tempo pela frente para conseguir encaixar tanta perda…e se verá.

    Um abraço

  • querida tia,
    que texto tão bonito mas não está tão sozinha como se sente e tenho a certeza que o meu pai, com aquele seu feitio difícil, gostava muito de si.

    um beijinho de todos

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