De A a Z, tudo se pode fazer DE OUTRA MANEIRA...
 

Kodak, para mais tarde recordar

A doente vinha com um ar afogueado, as faces vermelhas e um barrete de lã grossa enfiado até às orelhas. As roupas simples e as mãos rudes deixavam adivinhar uma origem humilde e provavelmente trabalho árduo no campo. – “Bom dia Sra. Dra.” – disse ela, com ar sorridente. Reconheci o sotaque alentejano e mandei-a sentar. Era a primeira vez que via a doente mas a leitura da ficha clínica era esclarecedora: uma longa história de infecções graves e cirurgias oculares que tinham levado praticamente à cegueira de um dos olhos. O outro, ainda ia vendo, tant bien que mal, e era o que lhe permitia fazer a lida da casa e tratar dos netos. Escapou-me, no entanto, na leitura apressada, a anotação de que a doente era analfabeta.
– “Então D. Arminda , vamos lá ver as letrinhas”-, disse eu apontando para o quadro luminoso. Mas não obtinha respostas. Ia apontando letras cada vez maiores mas a doente olhava para as letras e para mim, com um ar comprometido e, nada. Começava a ficar preocupada. Estaria também a perder a visão do único olho bom? Até que, em desespero de causa, dirigi o ponteiro para a letra maior de todas, o “K”. Então, a doente pôs subitamente um ar sorridente e disse, confiante – “Ah, essa conheço-a muito bem Sra. Dra. , é KODAK“-
Esta história que se passou comigo há alguns anos, veio-me de repente à memoria quando, recentemente, li a notícia do encerramento da Kodak.
Há nomes e marcas que se entranham nas nossas vidas e a que nos habituamos de tal maneira, que pensamos serem eternas. O seu fim provoca em nós um sentimento de incredulidade e estranheza difícil de explicar.
Fundada em 1888 por George Eastman, a Kodak Eastman Company não só foi pioneira na área da fotografia como conseguiu democratizar esta actividade, tornando-a acessível e fácil para todos, apenas com uma pequena câmara e um rolo fotográfico. Aquilo que dantes estava reservado apenas a alguns e que exigia todo um equipamento sofisticado, câmaras escuras, película, líquidos vários, papel para ampliação, etc., tornava-se agora um hobby ao alcance de todos, à distância de um clique. – “Você carrega no botão, nós fazemos o resto.”
A palavra Kodak foi inventada pelo próprio Eastman, a partir da sua letra preferida o “K”, com a qual pretendeu criar uma palavra simples, fácil de pronunciar em todas as línguas e que conseguisse evocar o “click” do disparo.
Embora tenha produzido diversos modelos de máquinas fotográficas, (lembro-me ainda bem do caixotinho em baclite preta com o qual tirei as primeiras fotografias, e mais tarde das máquinas Kodak Instamatic), a área em que a Kodak verdadeiramente se destacou foi, sem dúvida, na película fotográfica. Quem não se lembra dos rolos Kodakolor para fotografia em papel e dos Ektacrome e Kodakrome para diapositivos? Ainda hoje guardo no frigorífico um desses rolos em memória dos tempos em que era preciso esperar ansiosamente pela revelação, para saber se o resultado tinha ou não sido o desejado. Quantas vezes, a decepção era enorme, devido a um qualquer erro técnico, fazendo-nos perder para sempre o registo de momentos únicos. Durante a minha vida devo ter utilizado centenas senão milhares de rolos Kodak e tenho bem presente a ansiedade com que esperava pelas revelações dos diapositivos e as vezes sem conta que tive que voltar aos mesmos sítios para conseguir melhor luz ou melhor enquadramento.
A Kodak faz parte de um tempo em que se dava tempo ao tempo. Esperava-se que a comida apurasse lentamente ao lume, esperava-se pelos postais ou pelas cartas dos amigos e dos familiares distantes, esperava-se várias horas por uma chamada internacional, esperava-se três ou quatro dias em casa para ver se a febre baixava, antes de ir a uma urgência, esperava-se os nove meses de uma gravidez para saber se a criança era menino ou menina, esperava-se por quase tudo. Nada que se compare com a nova era do digital em que tudo se sabe, se vê, se faz e se desfaz na hora. Se a imagem não agrada, apaga-se e torna-se a fotografar. Tudo numa fracção de segundo.
Tal como os rádios Philips, as batedeiras Starmix, as salsichas Izidoro ou os chocolates da Favorita, a Kodak faz parte da galeria das marcas que povoaram a minha adolescência. Algumas, como Electrolux, Lambretta ou Caterpiller tornaram-se sinónimos dos próprios objectos. Umas perderam-se na memória dos tempos ou desapareceram devido a vicissitudes várias. Outras, como a Kodak, conseguiram sobreviver, melhor ou pior, até aos nossos dias.
Infelizmente, o slogan – “Kodak, para mais tarde recordar”- veio a revelar-se tristemente premonitório. Depois de alguns anos de dificuldades financeiras crescentes e de luta pela sobrevivência económica, a Kodak não resistiu à força imparável das novas tecnologias e, após mais de um século de actividade ininterrupta, acabou mesmo por encerrar. Irá, certamente ocupar um lugar de destaque no panteão dos ícones do século XX e ficará sempre na nossa memória, para mais tarde recordar.

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Escrito por

Isabel Almasqué, Médica oftalmologista. Ex-Chefe de Serviço de Oftalmologia do Hospital dos Capuchos. Ex-Secretária-geral da Sociedade Portuguesa de Oftalmologia. Co-autora de vários livros sobre azulejaria portuguesa.

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