De A a Z, tudo se pode fazer DE OUTRA MANEIRA...
 

Monólogo da Fernanda

(Vendo a novela da TVI)

Estas gajas são umas velhas e pensam que são novas! Coirões!
Haviam de ver como eu era jeitosa ainda há coisa de oito anos! Com cinquenta aninhos, estava boa como o milho. Até foi quando no escritório onde fazia a limpeza, o engenheiro me apalpou o cu. E eu, (tá bom, tá, não ando cá a perder ocasiões, e logo com um figurão daqueles!) encostei-me bem a ele.
Ainda me apalpou mais três vezes, mas ficou por aí.
Paciência!
Mas é que estas tipas não têm mesmo vergonha nenhuma para andar ali sempre aos beijos aos colegas…
Vá lá os miúdos dos «Morangos Com Açúcar»! Agora aquelas peruas
Será que aquela gaja é casada? É coisinha para já ter uns dois divórcios no bucho. Não deve haver marido que esteja para aturar aquilo.
Só pensam nelas, estas artistas! E ganham bom dinheirinho para andar ali aos beijos ao marido e depois ao amante. Um rico dinheirinho, sim senhor, e tu, Fernanda, para aqui desempregada!
Se tivessem um homem como o meu, chegavam a casa, levavam um enxerto de porrada ( para não serem desavergonhadas) e ficavam sem o dinheiro, porque ele ia bebê-lo todinho.
Que grande casa, que linda sala! Até parece a da Dr.ª Olga, cheiinha de bugigangas de louça. Não é que essa puta só me paga cinco euros por hora e só quer as terças de manhã, para eu me haver com aquela tralha toda…
Foi a fábrica que fechou, depois as limpezas nos escritórios acabaram-se, um foi à falência, outro mudou de mão…isto está uma desgraça! Fiquei só com a casa da Dr.ª Olga. Aquela grande cabra!
Tem tanta chinesada… Quando começo a lida da casa, a minha vontade é enfiar com as caixinhas de porcelana todas no caixote. A mulher é doida, tem para aí umas cem! Pirosa, estúpida, grande sovina, é o que ela é.
No Centro de Saúde, marca toda a gente para as oito da manhã, e depois a madama chega às onze. Claro que a consulta não demora mais que cinco minutos. Nem olha para a cara das pessoas, escreve umas coisas, com a cabeça para baixo e pronto.
Outro dia, a ti Amélia, coitadinha, cheiinha de dores nas pernas, sem poder andar, disse que a mulher esteve todo o tempo da consulta ao telefone. A velhota percebeu que era para o Brasil, a marcar hotel para férias.
Pois, telefone de graça…e um bom ordenado que dá para passear…
Os meus pais eram pobres, só fiz a terceira classe. Se eles tivessem sido gente de posses, agora podia estar no lugar daquela coruja.
Aquela fulana não tem consciência nenhuma. Um Centro na Freguesia da Sé, já se sabe que é só de velhotes cheios de maleitas e necessitados.
Se ela visse a miséria que é aquela sala de espera…
Mas a gaja está-se a cagar.
Ai meu Deus, olha esta matrona loira aos beijos àquele de cabelos brancos, o sujeito até parece que tem espuma de barbear na cabeça. Onde já se viu!
Nas brasileiras também há disto, mas não é assim. Fazem com graça, são novos, giros. E também ia jurar que não dão tantos beijos como nas telenovelas portuguesas. Sempre há outro recato.
Bem, e esta quarentona tão ruiva, tão ruiva (a mulher perece-me mesmo um semáforo) que não sai da frente da gente sempre em cuecas e soutien de cetim!
É só disto nas novelas portuguesas, matadoras em cuecas é o que há mais.
Prontos, agora lá vai mais um linguado no puto surfista…
É que esta gente nem olha a idades, ele é velhas com chavalos, catraias com velhadas… Que grande pouca-vergonha!
Por isso é que este país está como está!
Ai Fernanda, ao tempo que não dás um beijo destes! Desde o tempo da outra senhora. Se bem me lembro, ainda o Salazar não tinha caído da cadeira.

Não penses Fernanda, que a tua vida não é isto, e daqui a pouco chega o Horácio.
Deve vir bêbado como um cacho, e vai mandar vir se o comer não estiver na mesa.
E o cabrão, quando está mesmo cheiinho de vinho, larga aos pontapés a tudo.
Todos os dias morre gente, só a este gajo não lhe dá uma que o leve para o inferno!
Vá lá, que me vi livre do traste da mãe dele, aquela velha cinzenta, a cheirar aos fumados de cozinha de aldeia.
Veio lá dos confins de Trás-os–Montes só para me moer o juízo…
Custou, mas foi! Aquela estuporada que me lixou a vida durante trinta anos!
«Ó rapariga, não sejas badalhoca…Ó rapariga, não vês que não sabes fritar alheiras, o meu Horácio não gosta assim…».
Grande cabra, quando o gajo me arreava, ela ia para o quarto, à laia de não dar por nada. O que vale é que também apanhou bem do homem dela. As que se perderam forma poucas…
Não é que esta gaja se está a atirar ao loirinho que é da idade do meu neto?! Palavra de honra, eu fico parva com o descaramento destas sujeitas!
Bem, vou apagar esta merda, que se faz tarde para ir descascar as batatas para a sopa.
Cá o banhas não come sopa de véspera, tem que ser tudo acabadinho de fazer!
E hoje ainda vai dar dois murros na mesa, tão certo como eu me chamar Fernanda. Porquê não sei, ou porque o chouriço está mal assado, ou ficou esturricado…ou sei lá…. Ele tem cá um jeito para arranjar motivos, o cabrão!
E há uns tempos para cá que anda pior, parece que tem o diabo no corpo.
Dizem que os homens aqui do bairro, andam todos doidos por umas brasileiras que apareceram no café.
Se não fossem os duzentos euros que eu lhe consigo arrancar todos os meses, bem, se não fosse isso, muito gostava que ele fosse para o inferno uma vez por todas, com uma puta de uma brasileira qualquer!
Ai, quem me dera! Era o fim de quarenta anos de castigos.
Até já me lembrei de ir a Fátima pedir para me ver livre deste sacana.
Se me apanho a dormir sossegada, sem o gajo a roncar em cima de mim! (Parece a antiga sirene da fábrica, a chamar a gente à hora do almoço). E quando lhe dá para se roçar na minha perna?! Ai, cruzes, antes morrer que apanhar com ele em cima!
O que me vale, é que está sempre tão “entornado”, que não chega a lado nenhum.
Mas porque é que lhe não dá um ataquezinho do coração e Deus o leve de repente, ainda era o melhor para mim!
É isso mesmo, vou a Fátima com a camioneta da freguesia. Mas tenho que pedir tudo direitinho! Não vá Nossa Senhora mandar-lhe um AVC e ainda me fica aqui o homem entrevadinho, com a boca ao lado. Porra! Era só o que me faltava!
Então, mas para isso, o melhor será ir a pé, sempre tem mais devoção, mais fé e assim a Virgem atende melhor…
Vou falar com a Guilhermina que também é do Norte e percebe destas coisas.
Ela vai sempre a pé, a mulher lá sabe porquê…
Ah, agora é que estou a ligar… pois é… o homem dela morreu com um ataque fulminante, um enfarte ou lá o que é.
E esse era cá uma bisca, até um filho fez por fora… Em casa era cada carga de porrada! Ela é que me vai orientar nesta coisa.
O Horácio precisa de uma morte limpinha.
Ai, ai, Fernanda, se tu não fazes pela vida, ninguém o faz por ti!

Manuela Carona
Junho, 2019

Fotos de Minnie Freudenthal e Manuel Rosário

Musei Capitolini, Roma

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Escrito por

Actriz, nasceu em 1947, natural do Porto, vive em Alfama

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