De A a Z, tudo se pode fazer DE OUTRA MANEIRA...
 

Na hora da despedida

Os senhores do Atrium das Glicínias, Investimentos Imobiliários Lda., puseram os telemóveis em cima da mesa, tais cowboys nos filmes de western spagetti, e assinaram comigo um acordo. Entrego as chaves da casa até dia  até 31 de Agosto e recebo cento e cinquenta mil euros.

Ao tirarem os casacos, limpando com um lenço as testas e carecas reluzentes de suor, (não é só o trabalho braçal que cansa, isto de andar a despejar velhas de prédios antigos também cansa muito), apareceram imensas canetas nos bolsos de peito das camisetes aos quadrados de manga curta, o que lhes conferia uma ar entre o merceeiro e o contabilista.

Cem mil euros, sendo que 49% são para impostos, dá para alugar casa por uns anos… Quantos? Não sei quantos anos de vida (a pagar rendas) posso ter com essa quantia. Vai-se ver…

Não haver pensão de reforma para a estroinice (tantos anos na night), faz-me muita diferença neste momento!

Ando de um lado para o outro dentro de mim.
Sinto-me desmoronar por dentro. Qual parede irá a baixo? Qual ficará de pé? Aguenta Manuela.

E repito, Manuela. Porque o meu nome, ao contrário de tantas outras coisas que perdi, ainda é o meu nome. E, além de ser um lugar de identificação, significação, o meu nome é o modo como me procuro, como ouço o chamamento dos outros.

Foi em Setembro de 1980 que vim viver para esta casa. Numa altura, após revolução, que não havia casas para alugar. Dei quinhentos contos pelas chaves à velhinha que aqui morava, e pronto, fiquei com casa para a vida com uma renda muito baixa. O proprietário achou óptimo, ninguém queria vir para aqui viver e eu, assim, sempre lhe conservava a casa.

Uma rua que parecia medieval. Um prédio do séc. XVIII, que praticamente não levava melhorias desde a construção. Uma porta da rua que não tinha fechadura, estava sempre entreaberta. Uma escada íngreme onde já faltavam bocados de madeira de pinho, de tanta lavagem com lixívia. E onde à noite pernoitavam sem abrigo. Na primeira noite que aqui passei, roubaram-me o meu velho mini. E os vizinhos diziam com o ar mais normal do mundo «ah, isso são os filhos do homem das castanhas que mora no Beco Escuro, esses são mesmo ladrões». Portanto, ser ladrão era uma profissão admitida aqui no bairro. E eu, que até aí era lá donde venho, a «menina da quinta de Monserrate»!

E que feliz estava, uma casa linda, grande, que podia arranjar como quisesse… O rio debaixo das janelas. Iniciar uma vida totalmente nova aos trinta e três anos. Começar a fazer teatro… Tal como o rio, o sonho corria na minha frente.

Acredito que tinha alma, nessa altura.
Depois a vida vai-nos roubando a alma, até que no-la tira inteira e nos dá em troca, como consolo ou paga, um corpo.
É isso que sou agora, quarenta e três anos depois desse maravilhoso mês de Setembro de 1980, um corpo.
Se pudesse ver-me no meio do meu sonho, se pudesse tocar na minha mão de então, a paz regressaria ao meu corpo.

Mas nunca há paz em quem já viveu e continua vivo.
Faltam-me os que me amaram, faltam-me os locais, as casas, as coisas que estimava. Se fossem só essas as faltas…
Mas falto eu mesmo, e essa lacuna é tudo.

Nestas horas de despedida deste bairro que me deu tanto, subo a rua das Canastras. Paro à porta da mercearia onde uns “pintas” bebem umas cervejinhas frescas. O Albertino, conhecido carteirista do eléctrico 28, encolhendo os ombros com ar de quem já não percebe nada do que se passa, diz-me, «você já viu a pouca vergonha? Então acabaram assim com o turismo? E o que vai ser da malta? Graças a Deus, trabalhei umas vezes na construção civil e descontei para a Segurança Social! Mas olhe que há para aí muita malta feita ao bife…Olhe o Simões da Mouraria, era a família toda no ramo, filhos, genros, tudo. Ainda agora passei à porta do Pingo Doce e estavam lá os dois genros e um filho a pedir uma ajudinha».

Quem é que ia prever que Lisboa, a rainha dos turistas e carteiristas, ia ficar deserta? Até o 28 faz eco! Veja bem esta desgraça. E agora? Vamos costurar máscaras às florinhas ? Ou fanar carteiras uns aos outros???

Manuela Carona
Agosto, 2020

Fotos de Manuela Carona, banner de Manuel Rosário

Continuo na minha casa. Depois de tudo metido em caixotes, e negociada uma saída, os proprietários, em cima da hora de assinar o acordo, disseram que não tinham condições para a negociação. Fiquei, não sei até quando, mas feliz por estar confinada na casa onde vivo há quarenta e dois

São sete da manhã. Gosto de ir à janela espreitar o primeiro eléctrico 28 a passar na Sé. Vai repleto de lisboetas que vão para o seu trabalho. Ou antes, gente cansada de tanto ser despejada para alojamento local, gente cansada de fazer pastéis de nata, cansada de responder em inglês

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Escrito por

Actriz, nasceu em 1947, natural do Porto, vive em Alfama

Últimos comentários
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    Belo texto, Manuela. Gostei mesmo. Uma história triste, infelizmente real mas contada numa escrita fluida, sem melodrama e com ironia. Parabéns.

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    E agora, Manela? Depois dessa qualidade de Monserrate – ainda vou passando por lá, e te lembro _ e depois da rua do 28 e do mundo que por aí viveste,, vais encarar outra fatia de mundo diferente ! E o Porto, já pensaste? Continua vivo, sem Covid, sem engarrafamentos…e com gente, que por cá gosta de viver. Um beijo…João Paulo

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