De A a Z, tudo se pode fazer DE OUTRA MANEIRA...
 

Nasci para viver, roubei para comer

Onde é que eu já ouvi isto? Uma mensagem tão pessoal que, ao mesmo tempo, é um lugar tão comum! Esta frase não informa, alerta; é mais uma sinalização que uma narrativa. Sarrabiscada com letras incertas, um pouco acima da altura dos olhos, a mensagem voltou agora a emergir, tendo corroído a tinta verde clara que a escondia. As portas duplas de ferro do quarto já foram retiradas, quem sabe com a ideia de as reutilizar numa tentativa de proteger as entradas exteriores do complexo contra a invasão dos curiosos. No entanto, as grades de ferro das janelas e os vidros reforçados, agora rachados pelo calor intenso, não foram ainda arrancados.
Onde é que eu já ouvi esta frase? O eco da memória vaga — triste … na verdade horrível — parece que ecoa pelos corredores imensos, pelos quartos que se sucedem um ao outro, dando voltas aos pedaços de móveis partidos e perdendo-se nos colchões abandonados e húmidos, nos pedaços de carpete que remetem para tentativas sempre goradas de dar conforto ao que só pode ter sempre sido um espaço de mal estar; um espaço onde nunca ninguém pode ter querido viver.
E, no entanto, lá fora, esta fachada sul da Serra da Gardunha é um local especialmente encantador. Fechando o Fundão como se fosse uma cortina, a serra desce abruptamente sobre a planície da Beira Baixa que se abre para sul, depois de Castelo Branco, em direcção ao vale do Tejo. Quem faz as curvas da estrada de terra que vem lá de cima em direcção a São Fiel não pára de comentar a beleza da barragem recortada como um espelho complexo, a maravilha que são os montes espanhóis perdidos à distância entre nuvens baixas de algodão, o tom azul e verde da lonjura que se estende para lá dos campos recortados, do tracejado das oliveiras, carvalhos e sobreiros que estruturam a terra. Vamos descendo e vamos sentindo que estamos dentro de uma pintura medieval, com o São Jerónimo e o seu leão mais para a esquerda, já fora do ângulo de vista, e focando o nosso olhar sobre a paisagem medieval, azul-prateada com laivos de laranja, perdendo-se na distância.
Depois, no fundo da descida, chegamos a São Fiel: que nome tão bom para coisa tão má! O nome é suposto ser o do santo guerreiro, especialmente trazido em tempos de Pio X (de má catadura) das catacumbas de Roma, cujo esqueleto repintado e decorado a malha dourada está exposto na igreja da aldeia.

O edifício principal do complexo jesuítico do século dezanove, com a sua enorme igreja a leste, tem para aí quatro andares. A fachada principal, virada para uma linha de cinco palmeiras gigantescas (agora cinco enormes lápis de grafite que, na ponta superior, parecem ter futuristicamente explodido em lascas), poderia até ser grandiosa. Mas vê-se logo que há ali algo de errado. Há uma atmosfera aperrada na combinação dos espaços, na maneira como as janelas ladeadas de granito se combinam mal com o reboco branco, no desenho tosco e desproporcionado dos caixilhos das janelas, na falta de elã do desenho geral da fachada, na desordem dos enormes muros exteriores. Falta ali sobretudo visão estética, apesar daquilo tudo ter sido planeado numa escala assustadoramente grandiosa.
E, depois, fazemos a nós próprios a pergunta que ninguém que lá chega pode adiar: e para que serve aquilo tudo neste sítio perdido de Portugal? Sim, porque agora chega-se cá facilmente de carro, através de vias rápidas feitas no tempo do governo Cavaco (de má-memória), por meio de túneis que atravessam a montanha do tempo do governo Sócrates (de má-memória), por vias rústicas alcatroadas de fresco, que chegam ao mais fundo dos espaços interiores deste nosso país. E, mesmo assim, São Fiel continua a ser um cu-de-Judas … aliás, não só num sentido espacial mas, para quem lá entra dentro, cedo a coisa se apresenta como sendo um cu-de-Judas num sentido bastante literal.
No princípio veio a reacção anti-modernista dos jesuítas, depois veio um século e meio de guerras ideológicas, depois veio a monocultura do eucalipto, depois veio a incompetência do estado democrático português, cada vez mais reduzido na sua capacidade de resposta por virtude de políticas neo-liberais estúpidas … e, finalmente, veio o fogo.
Esse enorme colégio jesuíta, que na época da República passou para o Estado e que, depois, na época da ditadura, voltou a mãos clericais, tornando-se outra vez num dos maiores colégios internos de Portugal, teria podido ser um “espaço de cultura”, teria querido ser um espaço de pedagogia … mas logo que começamos a percorrer os seus infinitos corredores, os seus vastos salões, as suas salas de banho colectivas, os dormitórios sucessivos – tudo isto de, pelo menos, três épocas, cada uma mais feia e mais mal pensada que a outra – logo percebemos que cultura ali só da má, pedagogia ali só da violenta. E, depois, veio o fogo que desceu a montanha nas suas baforadas perfumadas do mentol dos eucaliptos que a ganância dos companheiros do Cavaco espalharam por todo o interior de Portugal. E o fogo desceu a montanha e acabou por transformar em chapas de grelhador os muros sólidos de granito que rodeiam o colégio de São Fiel. O fogo entrou pelo edifício a dentro e destrui a nave principal.
Agora, desapareceu completamente o cheiro a mofo que dominava esses espaços ainda no Natal passado, quando lá fomos escarafunchar. O fogo limpou aquilo tudo e deixou um vago cheiro a queimado que tem até o seu quê de agradável. Só é pena os muros, feitos de pedras graníticas gigantescas, não terem também caído. Fico com medo que alguém ainda um dia venha a ter mais uma vez a sinistra e malograda ideia de dar nova vida àquilo tudo. As grandes salas estão agora reduzidas às paredes exteriores, elevando-se andar sobre andar até chegarem lá em cima a uma chapa de betão armado que era um teto relativamente recente mas que agora está periclitante. Quanto dinheiro mal gasto vindo de programas de desenvolvimento da UE terá sido empregado pela câmara nos anos 90 para manter vivo e funcional um espaço que ninguém jamais saberá como utilizar?
É penoso pensar hoje nas filas e filas de rapazitos vestidos como corvos nas suas roupagens jesuíticas: todos ranhosos, todos mal cheirosos, todos mal dormidos e alimentados, todos inclinados à violência e ao sadismo … As resmas de batinas negras que todos os dias se moviam em direcção à capela. E, lá dentro, cada um deles, rezando, procurava carinho, procurava conforto na imagem juvenil da Virgem de Fátima, no corpo sanguinolento do Cristo pendurado sobre o altar, na beleza do São Sebastião que, nestas partes, sobreviveu a todas as mudanças, a todas as guerras, a todas as fomes, a todas as pragas. Como as preces deles devem ter sido intensas! Como devem ter eles procurado ali o que o mundo não lhes dava: um abraço reconfortante e carinhoso de corpos que se entreajudam na procura da vida.
Parece que ainda ouvimos as cozinheiras a gritar umas às outras no salão exterior que era usado para fazer as centenas de refeições três vezes ao dia; parece que ainda ouvimos a cantilena dos rapazes, repetindo até ao asco as suas miseráveis lições; parece que ainda vemos os olhinhos deles pregados sobre a figura sinistra do padre superior no púlpito, debitando lugares comuns e má teologia; parece que ainda vemos a alegria do movimento dos corpos no corte de basquete que alguém desenhou com linhas amarelas no pátio central.
Uma parte do edifício é dos anos 60. Pouco tempo, afinal, antes da libertação dos portugueses! Essa parte não ardeu, quiçá por ser mais solidamente estruturada por betão armado. Subimos as escadas e vamos encontrando mais banheiros colectivos, mais salas de aula, mais dormitórios dando para enormes corredores. Tudo isto pintado no mesmo verde claro debruado de branco-creme. E vamos subindo as escadas interiores. Aqui e ali o fogo que destruiu o edifício principal manifesta-se por uma parede destruída, por um corrimão sarrafuscado, por uma mancha de fogo na parede onde uma chama penetrou vinda do outro lado. Mas esta construção dos anos 60 resistiu no principal ao fogo. Somos levados escada acima na procura de uma janela que abra sobre a secção que ardeu ou sobre os pátios exteriores, procurando uma vista aberta do vale em frente.

No cimo das escadas, porém, damos com este quarto quadrado de para aí cinco metros quadrados. Primeiro notamos com surpresa que a estrutura da cama não foi escavacada como todas as outras neste vasto complexo: é que é feita de cimento. Depois vemos que há uma espécie de banco de cimento virado ao parapeito de uma janela que forma uma espécie de mesa. A janela, tal como a outra que está por trás dela e que é muito alta, tem um gradeamento forte e vidros reforçados por rede de arame. Começamos a assustar-nos e só então é que percebemos que a ombreira da porta foi alargada, de forma a permitir duas portas de metal armado, com cerca de trinta centímetros entre elas. Aquilo não era um quarto: aquilo era uma prisão! Ali, no lugar mais alto do edifício, virado para o lado de fora, de forma que os gritos dos ocupantes da “solitária” não fossem ouvidos pelo resto dos habitantes.
Só então levantamos os olhos e percebemos que, por trás da camada superficial de tinta verde, alguma escritura se destaca. Durante muito tempo não terá sido possível ler o que lá estava riscado. Mas, com o calor do fogo e o passar do tempo, a substância com que o risco foi feito (possivelmente um caco de barro vermelho) acabou por corroer a tinta do esquecimento e agora é outra vez possível ler o que o habitante deste sinistro espaço tinha para nos dizer: “nasci para viver, roubei para comer.”
De repente, de entre todos os milhares de rapazes que por lá passaram, as centenas de frades/padres que por lá exerceram o seu poder, as centenas de operários e operárias que lá trabalharam para poder comer, em épocas onde em Portugal poder comer não era coisa assente … de entre toda esta gente, destaca-se um rapaz. Mas de que idade? Não sabemos. De que aspecto? Não podemos sequer imaginar. Contudo, um rapaz; mal vestido e mal amado que, tendo sido preso ali durante semanas, tendo gritado inutilmente até perder a voz, tendo tentado dormir e já não tendo mais sono, escreveu essa frase na parede com o caco de um prato que terá partido em fúria.
Só resta imaginar que, pouco tempo depois terá vindo a Revolução dos Cravos e que, pouco tempo depois, as duas portas terão sido abertas, porque já não havia mais ninguém lá para justificar que o deixassem assim, meio louco, na solitária. Nesse dia, em que já não terá havido rapaz mais nenhum nos corredores, em que os funcionários já estariam todos espalhados por quatro cantos, sobrando quem sabe um ou dois que ainda não tinha para onde ir, a porta foi aberta. O rapaz saiu, titubeante, não porque lhe faltassem forças, mas porque não sabia que fazer cá fora. Com que movimento de abandono terá ele passado pelo padre com a chave na mão e descido estas escadarias intermináveis? Com que sentido de liberdade terá ele passado ao espaço exterior? Como terá ele olhado para trás, para esse sinistro edifício? Quem o terá levado dali? Sim, porque de São Fiel não é fácil chegar a parte nenhuma, e o nosso ex-prisioneiro da solitária dos padres não deve ter tido muito quem se preocupasse com ele.
Seja como for, essa era já outra época: a guerra ideológica tinha sido finalmente ganha e o espírito da Inquisição deitado para o sono dos tempos. Na nova época, os edifícios como este deixaram de fazer sentido; por muito dinheiro que a câmara tivesse lá gasto nos últimos trinta anos de democracia (a fazer cursos disto ou daquilo, festivais disto ou daquilo, jogos de basquete ou de seja o que for), nunca mais o edifício voltou a ser útil. Feliz, portanto, o poder do fogo dos eucaliptos: há bens que vêm por mal! Só mesmo a destruição e ruína poderão apagar um século de pedagogias perversas; um século de rapazes mal tratados e mal ensinados que foram depois deixados à solta por esse mundo, tratando outros segundo as luzes do mal-amar com que tinham sido eles próprios tratados.

João de Pina Cabral
Março, 2019

Fotos de Minnie Freudenthal, Monica Chan e Manuel Rosário

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Escrito por

Antropólogo social, Investigador Coordenador do Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa. Foi Presidente da Associação Europeia de Antropólogos Sociais entre 2003 e 2005. Entre muitas outras obras é autor de Between China and Europe: Person, Culture and Emotion in Macao. Continuum/Berg, Nova Iorque, 2002 e co-editor com Frances Pine de On the Margins of Religion, Berghahn, Oxford, 2007.

Últimos Comentários
  • Belo texto, Pina. Do melhor que se tem produzido neste site. A tua escrita transporta-nos para a realidade daquele ambiente sórdido e até nos arrepia. Que país este! As fotos, como sempre são magníficas. Estão todos de parabéns.

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