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O racismo lá longe

Outro dia assistimos todos no mundo inteiro ao homicídio de um homem algemado e desarmado perpetrado por um polícia em plena praça pública com pessoas a filmarem o acontecimento. Notem que nem é a primeira vez que isto acontece, nem é realmente surpreendente. Mas, desta vez, a coisa foi de tal modo descarada e a reação das autoridades (a polícia e o judiciário—felizmente não as autoridades municipais) foi tal que deu azo a um movimento de revolta que se alastrou por todas as grandes cidades dos EUA. Como Trump dizia ainda hoje aos governadores dos estados: “Vocês têm que dominar. Se não dominarem, estão a perder o vosso tempo—eles vão passar por cima de vós.  Vocês vão fazer figura de idiotas.” (Na verdade, não disse idiotas; teve o desplante de dizer jerk, palavra que me recuso a traduzir) Como se matar mais pudesse ser a solução para diminuir a fúria de quem não quer que os seus homens sejam mortos impunemente pela policia! Como todos os opressores, agora ele acusa os revoltados pelos efeitos da revolta. Também isso já não é novo!

E eu pergunto-me: E a morte lá longe deste senhor mais ou menos da minha idade, que desafios nos levanta a nós em Portugal?  E muitos de vocês responderão: Não, aqui não é assim, nós somos um povo de brandos costumes, aqui não há racismo desse!  E eu responderei: Então, expliquem-me porque é que as prisões portuguesas estão cheias de jovens homens com cor de pele um pouco mais escura do que a média da população nacional. Expliquem-me porque é que é nos bairros onde a população tem pele mais escura que se ouvem mais relatos de abusos policiais. E, sim, felizmente, que eu saiba, ainda não chegámos ao tipo de impunidade celebrativa que se verifica nos EUA. Mas expliquem-me também porque é que, nas nossas escolas e universidades quase não há professores escuros—e, quando há, ou são mulheres ou brasileiros.

Outro dia, em Londres, assisti à seguinte cena numa estação de metro: 20 policias, todos brancos mas de ambos os géneros, tinham parado um homem jovem, negro, muito bem vestido—“para saber se estada armado”, explicou-me uma mulher polícia que me impediu de avançar.  Quatro homens policias imobilizaram-no, encostando-o violentamente a uma parede e, como ele protestasse, acabaram por forçá-lo a deitar-se de costas para o ar com a cara esborrachada contra o chão sujo do metro.  Enquanto tudo isto se passava, a elegante namorada negra do jovem queixava-se chorando: Porque estão a fazer isso? Porque estão a humilhá-lo? Não vêm que não fez nada?

Claro que, como era patente desde o início, ele não estava armado.  Por isso, acabaram por ter que o deixar ir, mas agora sujo, humilhado e muito, muito zangado com a vida.  O que mais me chocou com esta cena e a fez inesquecível para mim, foram os pedidos desesperados da namorada para que não o humilhassem (Why are you humiliating him?) Para ela, este homem começaria logo ali a deixar de ser o mesmo que a tinha seduzido: o jovem prometedor, elegantemente vestido, que estava a tentar impressioná-la.  Por muito que ela fizesse, ele nunca mais poderia ter deixado de ter sido humilhado em frente a ela.  Ela sabia que ele tinha sido posto literalmente de rastos e que, nunca mais eles poderiam confrontar-se da mesma forma um com o outro.  Ela tinha tido o seu homem humilhado; nos olhos dela, ele sempre iria passar a ler essa redução do seu ego, por muito que ela fizesse. Estou a exagerar?  Não, infelizmente, não estou.  Isso é que é trágico—tudo isso já foi muito estudado e sabemos bem como funcionam os efeitos reflexos do estigma.  Começou ali ou, quem sabe, continuou ali mais um episódio do processo de marginalização e humilhação de mais um homem jovem negro, que nunca mais poderá deixar de ter a experiência que teve.  Nenhum de nós que tenha sido humilhado, oprimido ou tratado de cativo poderá jamais esquecer o que lhe aconteceu. Infelizmente, o pior é que, quando tentamos esquecer essas coisas, elas só se tornam piores! Qualquer licenciado em psicologia sabe explicar isso.

Vocês dirão: Oh, mas isso foi em Londres, não poderia ter-se passado em Portugal! E eu respondo: Ai não?! Tentem ser jovens, negros e fortes e passear-se nas praças do centro de Lisboa e logo verão! Como é que tantos desses jovens acabam por trás das grelhas das nossas prisões? Mas vocês dirão: Estás a pôr tudo ao contrário.  Eles estão lá porque são criminosos!  E eu responderei: Não, não.  Há criminosos de todo o género.  Em média, as pessoas de cor não cometem mais crimes, nem crimes mais horrendos que as pessoas “sem cor” (como se isso existisse!).  E, se contarmos com crimes de colarinho branco, burlas, violência doméstica, etc., então não restará a mínima dúvida que não há qualquer relação estatística entre comportamento criminoso e cor da pele. A coisa não passa por aí!

Aliás, não foi a cor da pele, mas sim a intervenção da polícia o que chamou à questão do crime.  Tudo começa de outra maneira: as pessoas de pele mais escura são sujeitas a processos de redução de valor pessoal que depois têm todo o género de manifestações secundárias: baixa educação, pobreza, má saúde, maior probabilidade de ser apanhado pela pandemia, insegurança familiar, desrespeito e desonra, etc.  Todos sabemos que tudo isto tem uma história longa e que, em especial, essa história passa pela história da escravatura trans-Atlântica—um episódio particular da história no qual os portugueses foram especialmente responsáveis.  Sim, sim: Especialmente, leram bem!  Mais que os outros países europeus? Muito mais! Como pode alguém negar isso face aos factos amplamente documentados?

Ora isso leva-nos a mais uma perplexidade: como pode ser que são precisamente as pessoas que mais praticam impune e alegremente atos de racismo que afirmam a pés juntos não conhecer essa história e considerar que não há racismo em Portugal?  É que negar essa história é uma das principais formas de a reproduzir.  É como com o patriarcalismo: dizer que ele não existe ou já não é relevante nos dias que passam, é a principal forma de o reproduzir e de diminuir moralmente o género feminino.

Por isso, se o que faz com que esses polícias, esses juízes, esses carcereiros sejam racistas sem saberem que o são—e não terem que sentir qualquer culpa por o serem—é que todos nós também somos sem sabermos que o somos.  Sem querer, não damos iguais chances de sucesso às diferentes pessoas que passam à nossa frente. E, se assim é, então um dos piores flagelos da sociedade em que vivemos hoje é causado pelas formas de classificação moral das pessoas das quais mal estamos conscientes e que herdámos de um passado que nos parece agora muito distante, mas que, de facto, afinal, não é tão distante como isso.

E, por isso, eu concluo: não há nada como mostrar a história para que ela não se reproduza.  É preciso levantar museus da escravatura, estátuas aos escravos que lutaram contra o cativeiro, às mães que perderam os filhos nas mãos dos esclavagistas, ensinar nas escolas obras de ficção em que se revisite esse trauma civilizacional dentro do qual o Portugal moderno emergiu (quatro séculos não é pouco tempo!).  Tudo isso é muito preciso e talvez ainda assim não chegue, para nos podermos assegurar que, em Portugal, nunca poderá vir a passar-se um horror como o que se passa diariamente nas ruas dos EUA.  Ninguém tem direito a preferir não ver que o racismo nos rodeia e que isso tem sido um dos principais impedimentos a que a cultura portuguesa descubra a sua verdadeira riqueza, a sua verdadeira vocação no mundo, a sua capacidade para tirar do sofrimento a beleza, de tirar da humilhação alguns dos espíritos jovens que mais poderiam contribuir para a nossa vida cívica.  Quantos de vocês sabem que o Almada Negreiros era sãotomense?  Há que pôr fim ao branqueamento da nossa história, porque isso vira-se contra nós.

João de Pina Cabral
Junho, 2020

Fotos de Minnie Freudenthal e Manel Rosário

Video de Manuel Rosário e Minnie Freudenthal, com vozes de amigos do De Outra Maneira

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Escrito por

Antropólogo social, Investigador Coordenador do Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa. Foi Presidente da Associação Europeia de Antropólogos Sociais entre 2003 e 2005. Entre muitas outras obras é autor de Between China and Europe: Person, Culture and Emotion in Macao. Continuum/Berg, Nova Iorque, 2002 e co-editor com Frances Pine de On the Margins of Religion, Berghahn, Oxford, 2007.

Últimos comentários
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    estamos todos a ficar sem respirar!

    e o sufoco é físico e mental….uma humanidade ´à beira do abismo dirigida por loucos que comandam cegos!

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    João, achei o teu texto óptimo até chegar à história do homem negro violentado pela policia, no Metro de Londres. Não acredito que uma mulher, perante uma cena como tu descreves, fique mais preocupada com a futura imagem do seu namorado/marido/companheiro/ amigo/ do que com a própria cena de humilhação e suas possíveis consequências, nomeadamente com o sofrimento da pessoa humilhada. Não sei se é isso que os homens pensam (ou o que tu pensas) que as mulheres pensam, mas não é com certeza o que as mulheres pensam. Sobretudo não é com nada disso que se preocupam (pelo menos na generalidade). Podes ter a certeza. Garantia dada pela minha experiência de mais de 60 anos de pessoa portadora de 2 cromossomas X.
    Quanto à ideia das pessoas não saberem que o Almada era de São Tomé, fica para outra conversa.
    Um abraço

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    E cá estou eu a concordar totalmente com a Isabel, novamente.
    Acredito ser a razão humana neutra em termos de sexos.
    Para concordar com a Isabel, em termos cromossómicos deverei ter um X e nenhum Y ?

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