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Pambara

Montanha Sagrada, Moçambique

Desde os tempos imemoriais que muitas sociedades tradicionais consideravam que a existência humana só era possível graças a uma comunicação permanente com o mundo celestial e ancestral.
Mas esse mundo, sagrado por excelência, não era uma mera fantasia, pois para aquelas sociedades, era o sagrado que propiciava o verdadeiro sentido da realidade, isto é, viver o mais próximo possível dos locais das manifestações dos antepassados, repetir seus gestos, suas palavras, praticar seus ensinamentos, tudo isso fazia com que aquelas pessoas pudessem viver em uma atmosfera impregnada de realidade.
Portanto, a manutenção daquela ligação era imprescindível. Entre estas ligações estão a escada, a árvore (ou tronco) e a montanha.
Muitas culturas falam de Montanhas Sagradas que se situam no centro do mundo, como o Olimpo na Grécia, como o Meru na Índia, o Harabereizati no Irão, o Gerizim na Palestina, o Kun Lun na China, o Cuzco no Peru, o Caparaó no Brasil, o Fuji-san no Japão, onde a montanha sagrada parece quase um ser vivo e se crê que ela seja o lar da Deusa da beleza, entre tantas outras montanhas, montes, e vulcões com os respectivos deuses do fogo.
Vir falar perante entendidos em geologia e em procedimentos geo- morfológicos, não é uma tarefa fácil para quem na vida tenha apenas tratado do habitat humano e da sua educação. Aceitei o desafio, pois sempre que estudei e projectei o habitat humano, compreendi que a relação homem e meio ambiente era dialecticamente inseparável.
Mas eu não vim falar de procedimentos filosóficos, mas sim da relação que existe entre as pedras e o homem. Esta relação é tão grande que reúne aqui homens a falarem de pedras. Pedras que são partes da grande pedra, o planeta, que vêm-se transformando de estados quantitativos que lhe confere diferenciadas e novas qualidades. Qualidades estas que se adquirem através de lutas externas e internas inerentes no processo de desenvolvimento de toda a matéria.

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Com estas considerações, venho apresentar aquilo que tive, por duas vezes, oportunidade de testemunhar, faz muitos anos, mas que asseguro que se mantém actual como fenómeno de relação entre o homem e a montanha.
Estando em Montepuez como professor de história e de desenho, numa aula de história, um aluno de Namuno, quando se falava da pré-historia e das pinturas rupestres informou-me que perto da sua aldeia natal havia uma gruta, na montanha de Pambara, com “coisas” dos antepassados.
Estávamos em 1976, procurei na documentação ao meu alcance e não encontrei nenhuma referência ao referido local.
Em 1979, mais perto do local, como director da escola secundária de Namuno, perguntei se alguém conhecia Pambara, sim, era conhecida a montanha e a sua localização. Não resisti. Organizámo-nos na escola e num fim-de-semana partimos para Pambara.
Depois escrevi um texto que foi publicado na revista Tempo.

Vi Tudo Menos Deus

A investigação permite-nos conhecer as realidades sócio-culturais do nosso povo.
Foi neste contexto que, no dia 24 de Julho de 1979, se deslocou um grupo de professores da Escola Secundária de Namuno e de Pemba, com destino à montanha de Pambara.
Era necessário efectuar-se um levantamento do referencial histórico- cultural da montanha, pois muita coisa era dita sobre ela e Pambara rodeava-se de mistérios.
Os alunos diziam-nos:
– “Há buracos grandes nas rochas…
– Camarada professor, também há uma espingarda de Deus lá em cima na rocha… e ninguém chega lá…

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– E há macacos, esquilos e outros animais que não têm medo de nós…”
Bom…. E quando perguntámos se tinham pinturas nas grutas, a resposta era sempre a mesma e em coro:
-“ Sim!…
Tínhamos que lá ir!”
Pambara fica situada aproximadamente a 26 km da escola secundária de Namuno, dos quais 9 km tiveram que ser percorridos a pé, por não ser possível o acesso de carro.
Estávamos a caminho de Pambara, uma formação Ígnea, muito característica nas províncias do norte do País, do Pré-câmbrico (meso- cenozoicas). Foi neste período que resultaram estes maciços Sianíticos e Carbonatitos.
Algumas destas formações, habituais em areias de rocha branda e de muita humidade, de onde resulta duas das formas mais comuns na paisagem de Cabo Delgado e Nampula, os Maciços desnudados, fenómenos de curta duração na história da rocha mas para nós de gerações e os Inselbergs. No caso de Pambara, aparenta reunir os dois tipos de formação, pois apesar de ter a forma de um Inselberg, o fenómeno erosivo visível confere também características de Maciço desnudado.
Saímos da Escola às 7 horas e, após os primeiros 17 km, parámos numa aldeia chamada Namatia. Assim que chegámos disseram-nos que não devíamos avançar sozinhos para a montanha sem primeiro contactarmos a mulher responsável por aquele local, pois somente ela nos poderia guiar até lá.
Ela chegou e com ela as perguntas aos espíritos, num local sagrado composto por uma cerca de bambu e capim, em torno de uma árvore, onde lá dentro existiam, na terra, cabaças e panelas com líquidos de vários tons.
Foi neste local onde a velha se despediu dos espíritos, antes de partir para Pambara.

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Disse-nos a velha:
– “Entrem e perguntemos aos espíritos se chegaremos sem problemas, ao monte”.
Entrámos e ela começou a entoar uma canção acompanhada por uma dança. Após isto disse-nos que poderíamos partir… os espíritos estavam connosco, nada nos aconteceria.
Aí fomos nós a caminho dessa montanha e das suas grutas.
Reparámos que estas excursões estavam bem organizadas pois, ao sairmos da aldeia, a velha parou e gritou para uma casa de onde saiu logo alguém que nos veio vender laranjas, para comermos durante a viagem.
Durante a caminhada, ao ritmo de marcha, a velha entoava canções só por ela conhecidas.
A marcha parecia longa e, ao fim da primeira meia hora, começaram os primeiros murmúrios:
– “Então, fica longe?…
– Não… é aqui mesmo, basta virar ali!”
Mas estávamos decididos a chegar a Pambara.
Passámos um rio sem ponte e… molhámo-nos até aos joelhos, também o rio era curto, bom, não era bem um rio mas talvez um riacho, ou melhor, um ribeiro.
Depois de uma caminhada intensa e cansativa, chegámos à base da montanha. Esta era bem alta, mas foi com dificuldade que a vimos, pois doía-nos o pescoço de tanto olharmos para o chão durante todo o caminho. Tinham sido quase duas horas de marcha.
Nas proximidades da montanha havia algumas pessoas que a vinham descendo. Tinham ido fazer os seus pedidos.

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Segundo a tradição local existe um Deus “N’luko”, criador da terra e dos seres, que hoje se encontra a descansar no céu, pelo trabalho que realizou. O N’luko não intervém na vida do homem, apenas goza os prazeres solitários de uma vida no céu.
Quando um homem morre, deixa na terra um espírito chamado “Minepa” e é este Minepa que intervém directamente na vida do homem. Os Minepas são sagrados e têm aspectos materiais, pois a população faz-lhes ofertas de comida (para este se alimentarem) ou de roupa (para eles se vestirem).
O Minepa é quem decide a vida ou a morte, a doença ou a saúde, a felicidade ou a infelicidade, a boa machamba ou a má colheita… enfim, ele é o nosso dono.
O Minepa quando não é assistido pelos seus descendentes vivos, provoca morte ou doença. É pois necessário satisfazê-lo, fazendo-se ofertas e também é possível fazerem-se pedidos.
Começámos a subir a montanha e após subirmos as primeiras centenas de metros, parámos na primeira estação, aí encontrámos um tronco caído, bem lascado, e por cima dele algumas ligaduras e pensos que doentes tinham deixado, ao perguntarmos à velha o porquê disso, ela nos explicou:
-“Essas ligaduras são para serem conservadas nesse tronco. Este tronco serve-nos de medicamento, por isso está lascado. Quem deixou essas ligaduras foram homens que tinham grandes feridas e não se curavam mesmo com tratamento hospitalar”.
-“Também se alguém estiver doente pode aqui vir pedir saúde e logo ficará bom”, acrescentou a velha.
Neste local o que mais nos impressionou foi a velha que ao lá chegarmos reiniciou com as canções e desta vez acompanhadas por danças.
À nossa volta saltitavam macacos que não mostravam medo do homem, no chão havia mandioca deixada por pessoas que ali passavam. Ficámos surpreendidos com os macacos, eles deviam ser alimentados assim há muito tempo, pois estavam bem habituados à presença do homem.

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Continuámos a subir e chegámos a uma lajeada bem grande, toda em rocha, ladeada dum lado por uma parede em pedra, com aproximadamente 300 metros de altura e do outro lado, a vista era linda, montes e árvores até ao infinito.
Ao chegarmos a esta segunda estação disse-nos a velha:
-“Meus filhos, chegámos ao local que vocês pretendiam ver. É neste local onde nós pedimos tudo aquilo que nos falta na nossa vida. Aqui chegámos porque os Minepas nos trouxeram. Se não fossem eles não chegaríamos, por isso é necessário agradecer-lhes”.
Ficámos a saber o nome da velha “Mpankeliyeni Nahana”. Mpankeliyeni apresentou-nos a um homem, também muito velho, chamado Laina Smith.
– Eu e Laina, disse, somos pessoas ressuscitadas, nascemos, crescemos, vivemos e morremos. Depois de morrer eu vi muitas pessoas que depois de algumas horas, levantaram-me e mandaram-me correr. Corri e vim até aqui onde aqui vivi muito tempo sozinha. Um dia uma outra mulher sonhou comigo e informou à restante população na sua aldeia de seu estranho sonho. Procuraram-me e aqui me encontraram, levaram-me para casa. Eu, enquanto aqui estive a viver, vi tudo menos Deus. Não iria mentir, Deus não vi.
Mpankeliyeni é a responsável por aquele local sagrado, essa responsabilidade foi-lhe atribuída pelos espíritos e ninguém lha pode tirar, disse-nos, aqueles que tentarem sofrerão, pois não se discute com os espíritos.
Mpankeliyeni disse-nos que não era a primeira responsável do local, pois o primeiro tinha sido o régulo Nanguena e sua esposa Nansupa. Estes foram substituídos após sua morte por seu sobrinho N’canco e ela e Laina eram os terceiros responsáveis de Pambara.
Disse-nos mais Mpankeliyeni:
-“ Meus filhos, este local é um centro de saúde muito conhecido. Os doentes que aqui vêm pedir saúde, depois de passar algum tempo, curam- se. Estes doentes trazem comida que aqui deixam para os Minepas comerem”.

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– “Toda a gente que aqui vem se cura?” – Perguntámos.
-“ Nem todos, mas a maioria cura-se”.
– “Meus filhos, acrescentou, aqui podem pedir aquilo que falta nas vossas vidas. A este lugar chegam alguns responsáveis para pedir saúde e para serem escolhidos para responsabilidades maiores e terem muito dinheiro”.
Ficámos surpreendidos e mais admirados ficámos, quando nos disseram que vinha gente até de Pemba (a aproximadamente 300km de distância).
Mas…. O que nos levou até lá, foram as pinturas rupestres nas grutas. Estas grutas não eram muito grandes, mas numa delas podia-se estar de pé. Acendemos lume e de pinturas nada, apenas morcegos.
Reparámos que na lajeada saltitavam, bem junto a nós, esquilos vermelhos.

Conclusão

Esta montanha tem particularidades morfológicas que a caracteriza particularmente em relação às restantes existentes na província, quer seja através de processos erosivos que os geólogos conhecem melhor, quer seja através da apropriação e transformação antrópica.
A relação desta montanha com o homem, é uma relação directa que se situa entre o tangível e o intangível.
Julgo que Pambara por si só, como formação geológica pode, por suas particularidades diferenciadas de composição, pela posição de destaque na paisagem e por suas características estéticas, considerar-se no quadro do património geomorfológico.
Pambara como ligação ancestral, pelo seu valor sócio-cultural, pelo intercâmbio de conhecimentos que propicia ao homem, criou e consolidou ao longo dos anos uma relação que lhe pode conferir eventualmente o carácter de geossitio a registar.

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Esta complexa relação simbiótica entre o tangível e intangível, é o que profundamente lhe dá destaque.
A montanha de Pambara é um local sacro, um templo, uma “catedral natural”, com toda a dimensão de grande espaço de culto, como tantos outros espaços construídos pelo homem, espalhados pelo mundo, que são património da humanidade.
Da mesma forma, muitos templos se espelham no simbolismo da Montanha Sagrada e assim possuem em seus nomes termos que se referem àquela imagem: Templo da Montanha, do Monte ou da Nuvem (que encobre as montanhas), como é o caso do Mosteiro da Nuvem Branca, em Beijing. Da mesma maneira o monte Sinai espelha-se no simbolismo de templo, pois marca o encontro entre Deus e Moisés, onde Moisés recebe de Deus os dez mandamentos, escritos na pedra, impressos no coração do homem como Lei moral universal, válida em todos os tempos e lugares. . Subir pois a montanha Sagrada, significa elevar-se espiritualmente, ao mesmo tempo que representa também uma viagem ao centro (do mundo). E, se entendermos o centro como origem, então a busca pela Montanha Sagrada significa também o Caminho do Retorno, o retorno à origem.
Num poema, Gibran dizia: (Gibran foi poeta, pintor e filósofo libanês, nasceu na cidade de Becharré, ao norte do Líbano, não muito longe da sagrada floresta dos cedros milenares.)
“Muito antigamente, quando a primeira trepidação da fala me chegou aos lábios, subi a montanha sagrada e conversei com Deus, dizendo: – Senhor, sou vosso escravo. Vossa vontade oculta é minha lei e vou cumpri-la para todo o sempre. Mas Deus não respondeu e passou por mim como uma tempestade violenta.
Mil anos depois, voltei a subir a montanha sagrada, e falei de novo com Deus, dizendo: – Criador, sou vossa criatura. Com barro me fizestes e a vós devo tudo o que sou. Mas Deus não me respondeu e passou por mim como mil asas velozes.

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Depois de mil anos, subi a montanha sagrada e falei de novo com Deus: – Pai, sou vosso filho. Com amor e compaixão me destes a vida e com amor e adoração vou herdar vosso reino. Mas Deus não me respondeu e passou por mim como os véus da neblina das montanhas distantes.
Passados outros mil anos, subi a montanha sagrada e me dirigi ao Criador de novo, dizendo: – Meu Deus, meu alvo e minha plenitude, sou vosso ontem e vós sois meu amanhã. Sou vossa raiz na terra e vós sois minha flor no céu, e juntos crescemos diante da face do sol.
Então Deus se inclinou para mim e sussurrou em meus ouvidos palavras doces e, como o mar que abraça um riacho que nele desagua, ele me abraçou.
E, quando desci para os vales e planícies, Deus também estava lá.”
Gibran Khalil Gibran ( 1883 – 1931 ) em “o louco”
Por duas vezes desci esta montanha, na primeira vez estava a trabalhar já há um ano em Namuno a cerca de 280 km da Pemba e no espaço de uma semana após a descida fui transferido para Pemba a capital junto ao mar, com novas e maiores responsabilidades. Na segunda vez que a desci dois anos depois novamente no espaço de uma semana fui transferido para o Ministério de Educação e Cultura em Maputo a grande capital, onde conheci a companheira da minha vida.
Não pretendendo ser como Gibran em três mil anos, como estará Pambara passados vinte anos?

Luís Lage
Março, 2013

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Escrito por

Arquitecto, Director da Faculdade de Arquitectura da Universidade Eduardo Mondlane, Maputo, Moçambique.

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