De A a Z, tudo se pode fazer DE OUTRA MANEIRA...
 

A pescada de rabo na boca

A Pescada de Rabo na Boca

Cefaleia Pulsátil Catamenial soa mais sofisticado do que Dor de Cabeça Menstrual às Guinadas, mas ambas as frases querem dizer o mesmo. A medicina é uma linguagem que por vezes pede tradução.

Mas no mundo das Finanças, onde desde os termos às explicações mirabolantes tudo contribui para confundir o basbaque, o Financês reina supremo. Não me foi possível arranjar a tradução em português para cada termo em Inglês, que apresento em Itálico, mas penso que em inglês não se perde nada na apresentação.

No tempo da velha senhora, quando um banco emprestava dinheiro a alguém para comprar uma casa, guardava os documentos no cofre, vigiava os pagamentos mensais, e passava a outros assuntos, a hipoteca esquecida na cave durante anos. Mas como no mundo da finança é nas transações que se ganha dinheiro, alguém se lembrou de juntar os empréstimos às centenas e vender o pacote a um Banco de Investimento, que ficava com o direito de receber os pagamentos mensais dos donos das casas. Chamam a isto Securitization. E o banco viu-se livre do risco envolvido na possibilidade de alguns dos compradores das casas não pagarem o que devem (esta é a explicação oficial, administração de riscos).

Agora o Banco de Investimento vai criar uma empresa (Corporation) chamada Special Purpose Entity (SPE), para onde vai transferir os direitos de colecta das rendas mensais envolvidas. E vai emitir acções dessa SPE que serão transaccionadas na bolsa de valores. Chamam a este tipo de acções Mortgage Backed Securities (MBS’s).

E um bem financeiro pouco líquido (empréstimo), transforma-se num bem líquido (acções na bolsa). Chama-se a isto Liquidity Tranformation.

Voltemos à nossa história. Agora a nossa SPE vai desdobrar o pacote de hipotecas em três Tranches, de risco escalonado para facilitar a venda a investidores diversos com tolerâncias diferentes quanto aos riscos envolvidos. Dão-lhe nomes como tranche Senior (pouco risco, 6%), Mezzanine (médio risco, 11%) e Equity (maior risco, 15%). Estas tranches chamam-se Collateralized Debt Obligation (CDOs). E durante todo o tempo estão as Rating Agencies (Moody’s,S&P) sancionando o processo. E os fundos de pensões compram na tranche Senior, investidores variados na Mezzanine, e os Hedge Funds na Equity. E para alavancar generosamente a compra, os Hedge Funds pedem emprestado ao banco inicial da nossa história, que presumivelmente concede o empréstimo, sem desta vez se preocupar com o risco. Na folha de balanços do banco a dívida do Hedge Fund substituiu as dívidas dos compradores das casas.

A pescadinha meteu o rabo na boca.

pescada de rabo na boca
pescada de rabo na boca

O Casino

Um Fundo de Pensões quer investir 1 bilião de dólares numa Corporação que tem um rating BB na rating agency Moody. Por limitações estatutárias só pode investir em empresas com rating superior a AA. Não há problema. Pagando 1% ano à AIG, o fundo faz um “seguro” cobrindo a eventualidade da Corporação escamotear a dívida. Este “seguro” chama-se Credit Default Swap (CDS). E porque a AIG paga à Moody para ter um rating de AAA em si própria (veja-se aqui a “independência” das rating agencies) é como se o fundo de pensões estivesse a emprestar dinheiro a uma corporação com rating de AAA. O dinheiro é emprestado a 10% ano à corporação com rating BB, 1% ano vai ser pago à AIG pelo “seguro” e tudo corre às mil maravilhas. E a nossa AIG, que opera fora das leis que regem as companhias de seguros normais, não tem suficiente reserva de segurança para cobrir eventuais pagamentos a segurados. Mas não há de novo qualquer problema. Os “peritos” decretaram há muito que a possibilidade de colapso financeiro são de um para um bilião….

Continuando, agora no país das maravilhas…Um Hedge Fund qualquer, que não tem absolutamente nada a ver com os intervenientes acima descritos, propõe à AIG o seguinte negócio:

Uma aposta. O Hedge Fund aposta que a Corporação acima citada vai falir e não irá ser capaz de pagar a dívida ao Fundo de Pensões. Se isso acontecer a AIG pagará ao Hedge Fund um balúrdio. Entretanto, e enquanto isso não acontecer, o Hedge Fund pagará à AIG um tanto por ano durante X anos. O Hedge Fund acaba de comprar um CDS sobre a corporação em questão sem ter absolutamente nada a ver com a mesma. Como num casino, uma simples aposta. A AIG aceita encantada. As comissões são pagas e toda a gente está feliz. E se der para o azar, serão todos baldeados (bailed out) pelo banco central. O processo é duma simplicidade quase comovente.

O Warren Buffett chamou aos derivativos Financial Weapons of Mass Destruction. Dor de cotovelo, certamente!

pescada de rabo na boca
pescada de rabo na boca

Financês

Façamos uma pausa. Como linguagem, o Financês tem termos esdrúxulos mas o mais interessante é a manipulação conceptual subjacente ao discurso. Quando os banqueiros falam no dinheiro parado dos empréstimos no fundo dos cofres, a precisar duma Liquidity Transformation, esquecem-se de dizer que cada um desses documentos é apenas prova duma transacção em dinheiro efectuada no passado entre aquele banco e um cliente. O dinheiro envolvido nunca parou, foi pago ao vendedor da casa, que pagou ao constructor, que pagou aos operários, e durante todo o tempo nunca saiu do sistema bancário, excepto quando o ocasional cidadão prefere notas e moedas nas compras do dia-a-dia. E esteve sempre líquido, pronto a ser gasto, em dezenas de contas à ordem espalhadas pelos bancos. Mas para o banco individual há aumento de liquidez, e aparente optimização dos riscos envolvidos, mas como vimos atrás não é disso que se trata. A finalidade é gerar transações e consequentes comissões.

As trocas descritas neste artigo foram inventadas para benefício dos agentes envolvidos, e tornadas possível pelo Quantitative Easing (QE), que só tem servido para promover a girândola das bolsas de valores, onde de facto não há deflação mas sim inflação geral dos preços de bens financeiros. As taxas de juro descem mas os ganhos de capital sobem. E muito pouco escorre para o resto da sociedade.

Um exemplo de Financês em Inglês

(dum artigo acerca dos Shadow Banks, Federal Reserve of NY staff report 458 July 2010).

Deve ser desfrutado em Inglês, evitando à primeira leitura as explicações entre parêntesis. Evite ler em pé, puxe uma cadeira.

Credit intermediation, the subset of financial intermediation that involves borrowing and lending through credit instruments, consists of Credit, Maturity and Liquidity transformation.
Credit Transformation refers to the enhancement of the credit quality of debt issued by the intermediary through the use of a priority of claims. For example, the credit quality of Senior deposits (tranches) is better than the credit quality of the underlying loan portfolio (SPE shares antes da tranching), owing to the presence of more junior claims (Mezzanine e Equity tranches).
Maturity Transformation refers to the use of short-term deposits to fund long-term loans, which creates liquidity for the saver but exposes the intermediary to rollover and duration-mismatch risks.
Liquidity Transformation refers to the use of liquid instruments to fund illiquid assets. For example, a pool of illiquid whole loans (hipotecas) might trade at a lower price than a liquid rated security secured by the same loan pool (acções na SPE), as certification by a credible rating agency (Moody’s) would reduce information asymmetries between borrowers and savers…

Compreendo, sente vertigens, paremos aqui…

Keynes wrote:

Speculators may do no harm as bubbles on a steady stream of enterprise. But the position is serious when enterprise becomes the bubble on a whirlpool of speculation. When the capital development of a country becomes a by-product of the activities of a casino, the job is likely to be ill done.
From Khan Academy, Tucson, 9/6/2014

José Luís Vaz Carneiro
Solipso52@hotmail.com
Setembro, 2014

pescada de rabo na boca
pescada de rabo na boca

Fotos de Minnie Freudenthal e Manuel Rosário

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Escrito por

Médico Hospitalar (EUA)

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