De A a Z, tudo se pode fazer DE OUTRA MANEIRA...
 

Que país somos?


QUE PAÍS SOMOS?

Que crenças ou valores nos unem ou separam?

Será esta epidemia um bom teste à nossa cidadania e à nossa solidariedade?

Pense nisto e envie-nos a sua opinião para deoutramaneira@gmail.com


(Fragmento de uma entrevista biográfica que será em breve editada em livro)

 

É pessimista?

Há sempre coisas extraordinárias e não sou pessimista nem optimista. O que é que vai acontecer? Ninguém sabe. Passei por muitas tragédias, sou contemporâneo da Guerra Civil de Espanha, da Segunda Guerra Mundial, da mortandade pela tuberculose, de várias crises económicas, de cataclismos. Assisti a tudo e cá estou. É impossível prever o futuro. Nem as cartomantes, nem os futurologistas conseguem.

É impossível fazer previsões? E tirar lições para evitar os mesmos erros?

É possível observar, analisar, tentar compreender. Mas será possível tirar lições para não repetir os mesmos erros? Santayana disse que “Quem não conhece a História está condenado a repeti-la” e Mark Twain, mais prudente, escreveu: “A História não se repete, mas rima”. Não sei…(ver mais)

António Barros Veloso
Junho, 2020

Prodigiosa capacidade de sonhar…

Pergunta-me o DOMA que país somos, ou, mais propriamente, quem somos, e será que esta epidemia é um teste à nossa civilidade e solidariedade?

Não sei se posso articular uma boa resposta em relação ao País que somos dado que emigrei há perto de quarenta anos. Vou com a frequência que posso a Portugal, e passei por aí uns três anos em que tentei reconstituir a vida, mas em que acabei por casar… com uma Chinesa mais Portuguesa que eu; mas o tempo e a distância dissolveram-me a objectividade necessária para uma resposta adequada.

Ainda assim, nem quatro décadas por fora atenuaram o meu portuguesismo: acho que somos o que somos, e somos também o que imaginamos ser, e, como bons Portugueses, recusamo-nos a distinguir entre os dois.

Ser Português é ser a incarnação de uma amálgama dos heterónimos de Fernando Pessoa, e assim passamos a vida num confortável continuum entre o sonho e a realidade, é um estado em que a realidade é menos dura porque é sonhada, e os sonhos mais agrestes porque assentam sempre numa dura realidade. E nesta amálgama somos meticulosos curadores do nosso museu de neuroses nacionais: do nosso porreirismo, das nossas mezinhas e lamentos, dos nossos queixumes e pequenas vaidades, do nosso menu de complexos e imperfeições.

A realidade é que os Deuses que nos criaram fizeram-nos baixinhos, feios e pobres, mas, nos nossos sonhos, um dia todos seremos altos, louros e herdeiros de Midas, porque ser Português não é ter sonhos sobre o que se é, mas tê-los sobre o que se irá ser. É que, embora passemos a vida a ruminar que a nossa grandeza está no passado, os nossos sonhos confortam-nos com a noção que a nossa maior grandeza ainda está para vir: será uma grandeza de contornos indefinidos, nebulosa e matinal, mas tão certa como a gravidade ou a morte. E nesta tão certa e futura grandeza não deixamos de ser baixinhos, feios e pobres, passamos apenas a não vergonha de o sermos. É que, como Portugueses, vivemos entalados entre a vergonha e a necessidade de a perdermos; que pudemos não gostar da realidade que somos, mas a nossa prodigiosa capacidade de sonhar impede-nos de mudar. Não, também não é que sejamos um povo dado a grandes intimidades com a inércia, mas antes que não conseguimos imaginar algo novo que não se pareça substancialmente com o velho. Somos assim um povo de continuidade e de uma aversão inata à transição: não detestamos nem o que é novo nem o que é velho, mas sim a transição de um para o outro. Ao Camões escapou-lhe esta nuance: as invectivas do Velho do Restelo não eram contra a viagem, nem contra a abertura de novos mundos, mas sim contra o desconforto da transição, da má comida a bordo, da higiene imprecisa e da líbido adiada.

Esta epidemia é uma crise à nossa escala: abstrata, invisível, conceptual, passível de ser definida à lá carte na privacidade dos nossos sonhos, e de ser engavetada no rame-rame imutável do nosso quotidiano. E é por isso tomada como algo que habita nos arrabaldes da nossa realidade: sabemos que existe, mas pudemos ir vivendo como se não existisse porque está para além do nosso curto horizonte. E quando confrontados com os seus horrores, pudemos sempre imaginar um futuro tão próximo quão indefinido em que a crise é apenas mais uma neurose que amornamos em privado. Assim, o uso de máscara passa a ser visto como uma moda engraçada ainda que passageira, e o distanciamento social é tido como uma manifestação física da nossa inata solidão – algo que está para a higiene social e o civismo como a hóstia está para a doutrina da Igreja.

A crise do vírus não compromete a nossa idoneidade, civismo ou solidariedade; antes, valida a nossa identidade, é absorvida pelo nosso universo onírico e é assim transformada no estrume que fertiliza as nossas neuroses preferidas. Esta maneira de encarar a crise evita que tenhamos que lidar com uma mudança, poupa-nos o custo emocional de nos encaixarmos numa nova maneira de viver ao dar-nos a ilusão que nada mudou, que o vírus é algo insignificante, é um parente próximo das maleitas dos mais velhos.

A crise ajuda-nos a ser quem somos, e é assim que nos imaginamos. E o futuro? O futuro será brilhante, próximo, e regado a vinho verde.

Adelino de Almeida
San Juan Mountains, Colorado
Dezembro, 2020

Que país somos?

Somos um país simpático, acolhedor, afável, solarengo, lindo, diversidade acentuada do Norte para Sul ou do Sul para Norte, somos Artistas não só no sentido da palavra, mas também no dia a dia, tudo é fácil e burocrático,” dá-se um jeito”.
Somos aventureiros, exploradores marcantes, deixando rasto por todo o mundo!
Temos defeitos e muitas qualidades.
Somos assim, de hábitos fortes e tradições persistentes.
Somos um belo país!
Somos o que queremos ser e acabamos por não ser aquilo que somos!

Maria Jordans
Dezembro, 2020

Mais uma corrida, mais uma viagem.

Antónia deixa a roupa no contentor do serviço, toma um duche veste-se e sai para a rua.

Olhos esbugalhados depois de mais uma noite cansativa, entende que aquela cidade flutuante que é o hospital, é mesmo a sua segunda casa e que o seu corpo não é mais do que uma ponte intermédia entre duas realidades que se articulam.

De um lado a vida familiar, o trabalho, a vida social, de outro a nova pandemia que invade o mundo e assusta um país com portadores do outro passaporte. O passaporte para o país da doença que ninguém deseja possuir.

O modo como a pandemia se expressou no comportamento social dos portugueses parece-lhe um case study curioso. Interroga-se sobre o porquê de um eventual estigma no divulgar de um teste positivo. Lembra-se de Susana Sontag com a sua metáfora da doença. E Camus com a flutuação de sentires no romance “A peste”. De início nota uma onda de solidariedade colorida, acompanhada de palmas às janelas, de lagrimita ao canto do olho, de discussões acesas nas redes sociais onde todos são opinion makers. Talvez esse movimento online de opiniões por vezes toscas seja demonstrador da necessidade do envolvimento social, num problema de saúde pública, um desejo da participação popular. A solidariedade é chamada à colação e sente-se grata por ser médica e viver esse momento de cidadania transbordante… (ver mais)

Leonor Almeida
Novembro, 2020

Muito nos une!

Começando por uma história comum de adversidades, conquistas, altos e baixos.
É impossível não nos sentirmos portugueses quando estudamos a nossa história e vimos momentos de união como o nascimento de Portugal, os Descobrimentos, a Restauração ou até momentos negros como Alcácer Quibir ou o Terramoto de 1755.
Essa história também leva agora ao que nos separa. A paixão pela caça ou pela tourada, tão enraizada no nosso passado, agora leva a momentos de confronto cultural entre o passado monolítico e saudosista e o futuro progressista e empático.
Falando em empatia, um estudo recente de uma conceituada revista de psicologia concluiu que a empatia de cada pessoa está directamente ligada ao cumprimento das regras definidas para a luta contra o SARS-CoV-2 como o uso de máscara ou o cumprimento do distanciamento social.
A renitência em cumprir estas regras, pelo país fora, mostra uma falta de empatia que infelizmente é uma característica menos boa do português. Conseguimos o melhor do apoio social a quem precisa, mas depois quando entra na nossa esfera pessoal , não conseguimos ser altruístas.
A epidemia trouxe ao de cima isso mesmo. Somos um povo do qual se merece ter orgulho, mas depois deitamos tudo a perder por individualismos e egoísmos. Interessamo-nos pelo que nos toca directamente a nós, mas temos muita dificuldade em pensar nos outros e em fazer o que nos custa. Tudo isto não me parece que seja causado por egoísmo, mas sobretudo por falta de empatia e um narcisismo elevado.
Talvez estas novas gerações, que têm uma cultura mais diversificada, tenham outra atitude para com o mundo e o país. Talvez estas novas gerações consigam mudar o que tem de mudar para podermos acabar com a pandemia e sobretudo com alterações climáticas.

Tânia Lobo
Novembro, 2020

Fotografias de Carlos Reis
Jardim da Gulbenkian, Maio de 2013

Encontro “quase viral”

Foi mesmo ali diante de mim. Primeiro vi-a agachar-se como se estivesse a apanhar qualquer coisa do chão, mas depois o seu corpo deixou-se cair e ficou estendido no passeio, imóvel, um braço para cada lado, como uma boneca de trapos.

Olhei em redor, as ruas estavam praticamente desertas. Vieram-me à memória aqueles vídeos que mostravam pessoas contaminadas com este novo vírus, a caírem assim, inanimadas, no meio da rua. Surpreendida a meio do meu passeio higiénico, eu nem máscara tinha. Um pouco a medo, vi que a mulher respirava pausadamente e baixei-me para lhe tomar o pulso e observar as pupilas. Eram duas da tarde e apesar de estarmos em Abril, o sol batia forte e o suor cobria-lhe a pele branca do rosto parcialmente coberto pelos cabelos loiros em desalinho.  Devia ter os seus trinta anos. Tenho que a tirar do sol, pensei… (ver mais)

Isabel Almasqué
Novembro 2020

O que nos une?
Fácil! 🙂

O que nos une é o futebol, a comida, a língua, o tempo, o mar, a terra, a bondade constante, o prazer de ser hospitaleiro, o nosso calor humano.
Mas também uma atitude pacífica de laissez-faire, um encolher de ombros contra a corrupção e injustiça. Um “sempre foi assim” frustrante que não conseguimos mudar, votando sempre nos mesmos mas esperando que algo mude.
E também, infelizmente, uma vontade de ter direitos sem ter deveres.

Será esta epidemia um bom teste à nossa cidadania e à nossa solidariedade?
Esta epidemia trouxe ao de cima o melhor e o pior do ser português e de viver em Portugal.
Por um lado, vimos a rapidez com que se ajudou quem precisava, a amizade para com o vizinho, o espírito de entreajuda tão nosso.
Por outro, veio ao de cima o narcisismo e arrogância. O desprezo inicial substituído por um medo quase irracional que depois deu lugar ao o “só acontece aos outros” tão português.
Passámos de “não uso máscara!” para o “não ponho o pé fora de casa!” e acabámos na máscara esquecida no bolso ou no cotovelo.
Somos boas pessoas mas maus cidadãos.
Se for para ajudar o vizinho, fazemos tudo mas se for para cumprir uma regra básica de cidadania que nos inoportuna já é tudo muito complicado. O princípio da minha liberdade acabar onde começa a do outro é muito complicado de interiorizar para nós.
Usar máscara nas escadas do prédio é pior atentado à liberdade do que a censura do Estado Novo que, diga-se de passagem, a maioria já não conheceu mas que todos invocamos na hora de nos indignarmos.
Ter uma app de rastreio de COVID-19 no telemóvel é tão difícil, tão complicado, tão intrusivo mas ter Instagram ou Facebook onde partilhamos demais não tem problema, onde aí sim deveria haver mais cuidado.
Acho que a pandemia permitiu ver isto. Somos excelentes vizinhos, amigos, parceiros. Somos péssimos cidadãos.

Para onde vamos?
Muitas das coisas que nos permitiam ter uma identidade comum estão a desaparecer. Já não vemos todos os mesmos programas, já não lemos todos os mesmos jornais, já não ouvimos todos a mesma música, já não trabalhamos a vida toda na mesma empresa, já nem vamos todos à missa. Há cada vez menos experiências partilhadas fora do futebol e do ocasional Salvador no Festival da Canção.
Isto leva a que surjam os saudosistas de outros tempos que votam em aberrações como o Chega – felizmente não temos nenhum Trump por cá! – mas leva também a uma diversidade de ideias fascinante que pode fazer com que o futuro seja fantasticamente brilhante e de possibilidades infindáveis. É uma altura muito interessante para ser português, mas é também uma altura em que as nações têm tendência a desaparecer.

Conclusão
Este exercício de raciocínio foi muito interessante. É importante pensarmos no que queremos que seja ser português e como queremos vivê-lo.
É um exercício individual e colectivo que, com a rapidez deste mundo, não fazemos com a profundidade e com o tempo que deveríamos. O que queremos do mundo, de Portugal, do nosso bairro, da nossa casa, de nós?

João Serra
Novembro, 2020

Quem somos nós?

Que crenças e valores nos unem? E quais nos desunem?

Que “marcos geográficos” nos orientam na escolha das nossas decisões colectivas?

O que vemos na paisagem de se ser Português?

Na estrada, ainda vejo um “salve-se quem puder” serpentear entre um fluxo mais colectivo.

Nas máscaras, a indecisão de quem não sabe bem de onde vem a autoridade legítima.

Mas sinto sempre uma “calma” (apática?) de quem vai aceitando o presente sem um mapa de futuro.

Minnie Freudenthal
Outubro, 2020

Fotos de Manuel Rosário

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Últimos comentários
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    Que belo texto este do João Serra. Resume tudo numa sábia frase: somos boas pessoas mas maus cidadãos. Está tudo dito. Parabéns.

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    Muito obrigado, Isabel!

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    Belo texto Isabel. Parabéns

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      A escrita da Isabel Almasqué tem a grande qualidade da concisão que vai sem floreados directa ao assunto objecto da sua narrativa, E a narrativa tem sempre uma elegância especial, de observação atenta, com subtil nota de humor, por vezes. Atrai, temos ler até ao fim para entender toda a “lição” contida.
      Neste caso em que o “acaso viral” reuniu na rua três pessoas de origem diferente, para ajudar uma jovem mulher caída inanimada no chão, vem ao de cima uma das grandes qualidades do nosso povo: uma médica que se preocupa, nunca diria utente, um varredor que estando ali vem ajudar (pesa muito um corpo inanimado) e uma senhora de que a isabel é cliente e ao ver a aflição completa o grupo, até que chega o INEM.
      Assim, nesta acaso não sabemos se viral, mas em todo o caso feliz, generoso e tão bem escrito, temos um bom exemplo a seguir. Somos assim muitas vezes, e não se fala disso.
      Atenção generosa, em todas as classes sociais…
      Quanto às fotos do Manuel do Rosário, já não tenho elogios, esgoto a lista, de cada vez que as vejo…
      Parabéns Isabel.

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        Querida Yvette, este comentário vindo de uma escritora com a sua grandeza, deixa-me sem palavras. É generoso demais mas, ao mesmo tempo, estimulante para uma escrevinhadora de trazer por casa, como eu. Obrigada pela sua amizade. Bj.
        Isabel

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      Obrigada Mopi. Bj.
      Isabel

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      Que lindo texto Mopi! Adorei! Muito bem explicado! De uma forma muito concreta e directa!

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    Um objetivo texto de Tania Lobo.
    Parabéns Tânia! Uma jornalista nata que nos deveria presenciar com os seus valiosos e construtivos textos frequentemente. É um dom que nem todos possuem !
    Força Tania

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      Obrigada, Mopi, pelas queridas palavras!

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    Pois é Tânia, só temos empatia em relação aqueles que consideramos da nossa “tribo” e a globalização veio, de certo modo, aumentar o sentimento de não pertença a qualquer tribo. A pandemia só veio acentuar ainda mais este estado de coisas.
    Isabel

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      É verdade, Isabel! Cabe a cada um de nós inverter essa tendência e ajudar os nossos próximos a verem também a importância disso pelos nossos sentimentos e acções.

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