De A a Z, tudo se pode fazer DE OUTRA MANEIRA...
 

Que país somos?


QUE PAÍS SOMOS?

Que crenças ou valores nos unem ou separam?

Será esta epidemia um bom teste à nossa cidadania e à nossa solidariedade?

Pense nisto e envie-nos a sua opinião para deoutramaneira@gmail.com


Muito nos une!

Começando por uma história comum de adversidades, conquistas, altos e baixos.
É impossível não nos sentirmos portugueses quando estudamos a nossa história e vimos momentos de união como o nascimento de Portugal, os Descobrimentos, a Restauração ou até momentos negros como Alcácer Quibir ou o Terramoto de 1755.
Essa história também leva agora ao que nos separa. A paixão pela caça ou pela tourada, tão enraizada no nosso passado, agora leva a momentos de confronto cultural entre o passado monolítico e saudosista e o futuro progressista e empático.
Falando em empatia, um estudo recente de uma conceituada revista de psicologia concluiu que a empatia de cada pessoa está directamente ligada ao cumprimento das regras definidas para a luta contra o SARS-CoV-2 como o uso de máscara ou o cumprimento do distanciamento social.
A renitência em cumprir estas regras, pelo país fora, mostra uma falta de empatia que infelizmente é uma característica menos boa do português. Conseguimos o melhor do apoio social a quem precisa, mas depois quando entra na nossa esfera pessoal , não conseguimos ser altruístas.
A epidemia trouxe ao de cima isso mesmo. Somos um povo do qual se merece ter orgulho, mas depois deitamos tudo a perder por individualismos e egoísmos. Interessamo-nos pelo que nos toca directamente a nós, mas temos muita dificuldade em pensar nos outros e em fazer o que nos custa. Tudo isto não me parece que seja causado por egoísmo, mas sobretudo por falta de empatia e um narcisismo elevado.
Talvez estas novas gerações, que têm uma cultura mais diversificada, tenham outra atitude para com o mundo e o país. Talvez estas novas gerações consigam mudar o que tem de mudar para podermos acabar com a pandemia e sobretudo com alterações climáticas.

Tânia Lobo
Novembro, 2020

Fotografias de Carlos Reis
Jardim da Gulbenkian, Maio de 2013

Encontro “quase viral”

Foi mesmo ali diante de mim. Primeiro vi-a agachar-se como se estivesse a apanhar qualquer coisa do chão, mas depois o seu corpo deixou-se cair e ficou estendido no passeio, imóvel, um braço para cada lado, como uma boneca de trapos.

Olhei em redor, as ruas estavam praticamente desertas. Vieram-me à memória aqueles vídeos que mostravam pessoas contaminadas com este novo vírus, a caírem assim, inanimadas, no meio da rua. Surpreendida a meio do meu passeio higiénico, eu nem máscara tinha. Um pouco a medo, vi que a mulher respirava pausadamente e baixei-me para lhe tomar o pulso e observar as pupilas. Eram duas da tarde e apesar de estarmos em Abril, o sol batia forte e o suor cobria-lhe a pele branca do rosto parcialmente coberto pelos cabelos loiros em desalinho.  Devia ter os seus trinta anos. Tenho que a tirar do sol, pensei… (ver mais)

Isabel Almasqué
Novembro 2020

O que nos une?
Fácil! 🙂

O que nos une é o futebol, a comida, a língua, o tempo, o mar, a terra, a bondade constante, o prazer de ser hospitaleiro, o nosso calor humano.
Mas também uma atitude pacífica de laissez-faire, um encolher de ombros contra a corrupção e injustiça. Um “sempre foi assim” frustrante que não conseguimos mudar, votando sempre nos mesmos mas esperando que algo mude.
E também, infelizmente, uma vontade de ter direitos sem ter deveres.

Será esta epidemia um bom teste à nossa cidadania e à nossa solidariedade?
Esta epidemia trouxe ao de cima o melhor e o pior do ser português e de viver em Portugal.
Por um lado, vimos a rapidez com que se ajudou quem precisava, a amizade para com o vizinho, o espírito de entreajuda tão nosso.
Por outro, veio ao de cima o narcisismo e arrogância. O desprezo inicial substituído por um medo quase irracional que depois deu lugar ao o “só acontece aos outros” tão português.
Passámos de “não uso máscara!” para o “não ponho o pé fora de casa!” e acabámos na máscara esquecida no bolso ou no cotovelo.
Somos boas pessoas mas maus cidadãos.
Se for para ajudar o vizinho, fazemos tudo mas se for para cumprir uma regra básica de cidadania que nos inoportuna já é tudo muito complicado. O princípio da minha liberdade acabar onde começa a do outro é muito complicado de interiorizar para nós.
Usar máscara nas escadas do prédio é pior atentado à liberdade do que a censura do Estado Novo que, diga-se de passagem, a maioria já não conheceu mas que todos invocamos na hora de nos indignarmos.
Ter uma app de rastreio de COVID-19 no telemóvel é tão difícil, tão complicado, tão intrusivo mas ter Instagram ou Facebook onde partilhamos demais não tem problema, onde aí sim deveria haver mais cuidado.
Acho que a pandemia permitiu ver isto. Somos excelentes vizinhos, amigos, parceiros. Somos péssimos cidadãos.

Para onde vamos?
Muitas das coisas que nos permitiam ter uma identidade comum estão a desaparecer. Já não vemos todos os mesmos programas, já não lemos todos os mesmos jornais, já não ouvimos todos a mesma música, já não trabalhamos a vida toda na mesma empresa, já nem vamos todos à missa. Há cada vez menos experiências partilhadas fora do futebol e do ocasional Salvador no Festival da Canção.
Isto leva a que surjam os saudosistas de outros tempos que votam em aberrações como o Chega – felizmente não temos nenhum Trump por cá! – mas leva também a uma diversidade de ideias fascinante que pode fazer com que o futuro seja fantasticamente brilhante e de possibilidades infindáveis. É uma altura muito interessante para ser português, mas é também uma altura em que as nações têm tendência a desaparecer.

Conclusão
Este exercício de raciocínio foi muito interessante. É importante pensarmos no que queremos que seja ser português e como queremos vivê-lo.
É um exercício individual e colectivo que, com a rapidez deste mundo, não fazemos com a profundidade e com o tempo que deveríamos. O que queremos do mundo, de Portugal, do nosso bairro, da nossa casa, de nós?

João Serra
Novembro, 2020

Quem somos nós? Que crenças e valores nos unem? E quais nos desunem?

Que “marcos geográficos” nos orientam na escolha das nossas decisões colectivas?

O que vemos na paisagem de se ser Português?

Na estrada, ainda vejo um “salve-se quem puder” serpentear entre um fluxo mais colectivo.

Nas máscaras, a indecisão de quem não sabe bem de onde vem a autoridade legítima.

Mas sinto sempre uma “calma” (apática?) de quem vai aceitando o presente sem um mapa de futuro.

 

Minnie Freudenthal
Outubro, 2020

Fotos de Manuel Rosário

Partilhar
Últimos comentários
  • Avatar

    Que belo texto este do João Serra. Resume tudo numa sábia frase: somos boas pessoas mas maus cidadãos. Está tudo dito. Parabéns.

  • Avatar

    Muito obrigado, Isabel!

  • Avatar

    Belo testo Isabel. Parabéns

    • Avatar

      A escrita da Isabel Almasqué tem a grande qualidade da concisão que vai sem floreados directa ao assunto objecto da sua narrativa, E a narrativa tem sempre uma elegância especial, de observação atenta, com subtil nota de humor, por vezes. Atrai, temos ler até ao fim para entender toda a “lição” contida.
      Neste caso em que o “acaso viral” reuniu na rua três pessoas de origem diferente, para ajudar uma jovem mulher caída inanimada no chão, vem ao de cima uma das grandes qualidades do nosso povo: uma médica que se preocupa, nunca diria utente, um varredor que estando ali vem ajudar (pesa muito um corpo inanimado) e uma senhora de que a isabel é cliente e ao ver a aflição completa o grupo, até que chega o INEM.
      Assim, nesta acaso não sabemos se viral, mas em todo o caso feliz, generoso e tão bem escrito, temos um bom exemplo a seguir. Somos assim muitas vezes, e não se fala disso.
      Atenção generosa, em todas as classes sociais…
      Quanto às fotos do Manuel do Rosário, já não tenho elogios, esgoto a lista, de cada vez que as vejo…
      Parabéns Isabel.

      • Avatar

        Querida Yvette, este comentário vindo de uma escritora com a sua grandeza, deixa-me sem palavras. É generoso demais mas, ao mesmo tempo, estimulante para uma escrevinhadora de trazer por casa, como eu. Obrigada pela sua amizade. Bj.
        Isabel

    • Avatar

      Obrigada Mopi. Bj.
      Isabel

  • Avatar

    Um objetivo texto de Tania Lobo.
    Parabéns Tânia! Uma jornalista nata que nos deveria presenciar com os seus valiosos e construtivos textos frequentemente. É um dom que nem todos possuem !
    Força Tania

    • Avatar

      Obrigada, Mopi, pelas queridas palavras!

  • Avatar

    Pois é Tânia, só temos empatia em relação aqueles que consideramos da nossa “tribo” e a globalização veio, de certo modo, aumentar o sentimento de não pertença a qualquer tribo. A pandemia só veio acentuar ainda mais este estado de coisas.
    Isabel

    • Avatar

      É verdade, Isabel! Cabe a cada um de nós inverter essa tendência e ajudar os nossos próximos a verem também a importância disso pelos nossos sentimentos e acções.

COMENTAR