De A a Z, tudo se pode fazer DE OUTRA MANEIRA...

Um belo dia, numa tarde quente de Outono, recebi um telefonema a dizerem-me que tinhas nascido. Dirigi-me ao hospital D. Estefânea. E de uma forma completamente grátis, uma enfermeira põe-me nos braços uma menina. Muito morena, já com expressão de gente, de olhar intenso, não te parecias com ninguém da família, um ser completamente desconhecido. E eu, com inteiro direito sobre ti, o direito de te amar extravagantemente, com todo o amor que há anos se acumulava, atrofiado, no meu coração.

Tenho a certeza que a vida nos dá netos para compensar todas as mutilações que ela nos causou. São amores novos, profundos e felizes, que vêm ocupar aquele lugar vazio, nostálgico, deixado por frustrações várias.

Aos catorze meses começaste a vir para minha casa à sexta feira e passavas dois dias comigo. Aí, deixei de saber quem eu era, para além do acto de esperar pelas cinco horas de sexta feira, para te ir buscar à creche .

Esperar assemelhava-se a ser.

Contigo ao colo, percorria a baixa e o Chiado à procura de diversão. No meu bairro não tínhamos jardim, nem meninos para brincar, mas tínhamos cabo verdeanos a tocar, rapazes a dançarem hip hop, brasileiros a dançarem capoeira. Foram tardes a dançar coladeras e funanás à porta da Brasileira do Chiado. Depois, descíamos até ao Campo das Cebolas para dançar ao som da banda brasileira que animava as noites do mês de Sto. António.

Éramos felizes nesta festa urbana.

E de pernas cruzadas, sentadas no chão na Rua Augusta, entoávamos o mantra  “hara krishna, hare krishna, krishna krisna, harah hare, hare rama …” com um grupo de brahmanas. A rua dava-nos tudo, não precisávamos de mais nada. As duas, sozinhas, descobríamos o mundo no meio da baixa. Em noites quentes de Setembro, descíamos e subíamos as escadinhas de Alfama, ouvindo o fado que se cantava dentro das igrejas de S. Miguel e de S. Vicente. Era o festival de fado de Alfama.

Por tua causa, regressei à infância. Tenho um desejo imoderado de brincar, de ser criança. Na minha vida houve dez anos de internato, num colégio de Doroteias. Lá, tudo era proibido e o que não era proibido, era obrigatório. A minha infância acabou a meio da infância.

Por ser brincalhona, arriscava não ir a casa aos fins de semana de saída, que eram de quinze em quinze dias. Arriscava ficar sozinha de castigo na capela, enquanto todo o colégio jogava “à barra” no recreio. Arriscava comer em pé, na copa sozinha, enquanto todo o refeitório tagarelava com alegria, depois da sineta quebrar o silêncio obrigatório. Arriscava, na aula, subir ao estrado para levar com a palmatória nas mãos. Arriscava o desprezo da freiras, por não ser como era suposto ser. Arriscava levar uma estalada da minha mãe, no meio do salão nobre, quando da visita dominical.
Arriscava muito para ser o que era, uma Criança.

Quando tive a tua mãe, achei que foi um milagre. Olhava-a sempre como um milagre.
Tu foste a oportunidade de recuar à infância. E na terceira idade, fiquei mais jovem e experimentei uma nova espécie de liberdade.
A última vez que saímos juntas, foi no Natal. E eis a verdadeira felicidade: passear contigo, de braço dado, no Centro Comercial Colombo.
Querias ir à loja que as tuas amigas idolatravam. Havia uma tal mini saia xadrez que era imprescindível, objecto de afirmação do começo da adolescência, duma escola, dum certo grupo…
Entraste emocionada na loja.
A tua mãe não concorda com esta loja. Porque é cara. Porque só tem um número, e como tal, exalta as magras e fomenta a anorexia. Porque leu algures, que a marca só emprega loiras e é racista…Bem, pairava um leve ambiente proibitivo que tivemos que superar.
As peças de roupa eram caríssimas para os meus hábitos de consumo.
Eu esqueci os meus problemas económicos, e tu, as recomendações da tua mãe, e avançámos para loja, depois de esperar três quartos de hora para entrar.
A alegria que me invadia por te ver feliz, é algo difícil de explicar. Jamais a sentiria com nada neste mundo.
A compra tinha que ser bem pensada, mas em simultâneo, feita depressa, o Centro fechava à uma hora, era um fim de semana de confinamento.
Estiveste na dúvida entre a mini saia e um blusão azul claro. Hesitaste muito, mas estavas emocionada, era uma dúvida alegre, festiva. Eu olhava para ti. Descrevia-te os artigos com objectividade, tentando ajudar-te, para que decidisses por ti mesma.
A vida passava nesse instante.
Doíam-me imenso as costas. Ia carregando com o dedo no quadril, tentando aliviar a dor e sentir um pouco de alívio.
Experimentaste várias vezes as duas peças. Estavas resplandecente e vulnerável. Tanto resplandecente quanto vulnerável. Mas soubeste escolher a peça que querias.
E eu pensei: «Oxalá não duvides como eu duvidei sempre…Espero que tenhas certezas, já que eu nunca tive. E que tenhas coragem e vontade de viver.»

Vou até à tua rua para te ver à varanda. No cimo do teu quinto andar e dos teus treze anos, dizes-me adeus para baixo, para os meus 73 anos. Vejo-te mal, quero ver a tua cara, a tua expressão. Ponho os óculos, e consigo ver o teu sorriso.
E venho feliz para casa.
À noite, recebo uma mensagem de whatsapp a dizer «Nela, adoro-te»
Estou deitada na cama.
Deixo cair o telemóvel em cima do peito, como se fosse uma pistola, um crucifixo, um sacramento.

Manuela Carona
Março, 2021

Foto de Manuela Carona

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Escrito por

Actriz, nasceu em 1947, natural do Porto, vive em Alfama

Últimos comentários
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    Bela prosa simples e directa.
    Amor por uma neta, como por uma rosa…um perfume feliz.

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      Obrigado, as suas palavras deixam-me sempre muito lisonjeada. Sim, é um perfume feliz…

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    Li o teu texto com grande deleite, escrita fluida, sentida viva!
    Que bom,! deixa-nos ler mais textos teus. Obrigada , amiguinha de infância.
    Lembro-me muito bem de ti no Colégio das freiras espanholas em Matosinhos, lembras-te?
    Um abraço muito forte

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      Obrigado querida Céu. As freiras espanholas eram umas queridas, o pior foram as outras…beijos, saudades

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    Depois de ler dois comentários fiquei à vontade para te dizer que me lembro de ti em Aregos. Foi também la que conheci o meu grande amigo João S. de Amarante e ainda guardo a memória de dois dias que passaram a correr há quase talvez 40 anos. Nunca mais te vi. Nunca mais nos cruzámos, mas esta história de amor e dor ou vice versa faz-me perceber porque me lembro de ti.

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