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Para que serve um presépio

Um grupo de estudantes de doutoramento de antropologia do ISCTE/IUL, em torno à inspiração de Filipe M. Reis, estão a produzir uma série de podcasts sobre temas de interesse geral. Recentemente emitiram um fascinante sobre “quem está na prisão?”, onde entrevistaram a sempre efervescente Catarina Fróis. Agora, acabam de produzir um episódio natalício onde me entrevistam a mim próprio sobre o significado dos presépios.

Eu adoro podcasts, porque é uma espécie de programa de rádio em que somos nós quem decide o conteúdo. Faz-se um download para o nosso telefone e, num momento em que estamos a fazer algo que exige olhos e mãos mas não ocupa a cabeça, podemos entreter-nos ouvindo um programa que nos aguça o engenho.

Neste caso, a pergunta partiu do facto de ter chegado aos meus entrevistadores a informação falsa de que eu tinha uma coleção de presépios. De facto, havia um erro: não sou eu que coleciono estas imagens do cerne mítico da nossa sociedade ocidental, era a minha mãe e, entretanto, a coleção dela já foi distribuída entre os amigos e parentes dela, cada um levando um exemplar desse seu fascínio (no fim da sua vida, ela tinha colecionado bem mais de duzentos exemplares).

Mas a dica original não foi desperdiçada. Passámos, pois, um momento entretido na regie do ISCTE, a tentar responder a essa pergunta curiosa: para que serve um presépio? Porque temos nós essa imagem e como é que ela nos apela? Que estará implícito no interior dessa cena mítica, que é tão comum que já nem parece dizer nada? Será que há pessoas a quem o presépio não ocorre, a quem o presépio não diz nada? Se sim, porquê? Essa pergunta contrafactual, que é o instrumento principal do bom pensamento antropológico, foi-nos levando a explorar exemplos e a identificar casos.

Ouçam: pode ser que tenham como juntar as estas algumas das vossas próprias histórias. E, já agora, desejo a todos os leitores do De Outra Maneira umas festas felizes.

João de Pina-Cabral
Dezembro, 2018

Foto de Minnie Freudenthal e Manuel Rosário

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Escrito por

Antropólogo social, Investigador Coordenador do Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa. Foi Presidente da Associação Europeia de Antropólogos Sociais entre 2003 e 2005. Entre muitas outras obras é autor de Between China and Europe: Person, Culture and Emotion in Macao. Continuum/Berg, Nova Iorque, 2002 e co-editor com Frances Pine de On the Margins of Religion, Berghahn, Oxford, 2007.

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