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O meu Serviço Médico à Periferia

O Serviço Médico à Periferia, que se iniciou em 1975, foi um ano complementar na formação dos jovens médicos, que concluíam o seu curso após o 25 de Abril de 1974. Para além desse ano obrigatório, fazíamos ainda oito meses de serviço de Saúde Pública, inseridos no nosso estágio de formação, referentes aos dois anos de Internato Geral.
O meu primeiro contacto com essa realidade decorreu em 1978/79 no âmbito do estágio de Saúde Pública, numa vila do interior do Baixo Alentejo, justamente, em Aljustrel, com a mítica mina a servir de cenário.
Era um local privilegiado em termos de formação em saúde pública, pela qualidade do trabalho e organização do serviço orientado pelo Dr. António Cardoso Ferreira e sua mulher, Maria José. Este, era um local emparelhado, em termos de referência, com o de Cuba do Alentejo, onde era então Delegado de Saúde o Dr. Francisco George, igualmente um entusiasta no amor à população e à ciência.
O Delegado de Saúde de Aljustrel, o Dr. Cardoso Ferreira demonstrou ser um visionário que nos arrastava na motivação. Jungeiros, Messejana e mais aldeias passaram a ter uma outra vida durante esses inesquecíveis oito meses. Campanhas de vacinação, Saúde Escolar, Medicina Familiar, Consultas de Medicina Geral e Educação para a Saúde, no sentido de promover a literacia em saúde. Apresentávamos, então, nas aldeias fora do horário comum, rotativamente, filmes que rebobinávamos numas máquinas enormes, hoje obsoletas…mas que nos faziam acreditar sermos os promotores do Cinema Paraíso no local.
A confraternização com a população demonstrou ser uma surpresa boa para todos. Chegou a haver uma reunião internacional em Aljustrel, organizada pelo Delegado de Saúde, com médicos vindos de locais tão díspares como a Guiné, Cabo Verde e outros países que responderam à chamada. E trocamos experiências e metodologias. Vivíamos numa casa branca, grande, que havia servido antes, para acolher uns engenheiros da mina. No nosso novo lar a gestão comunitária funcionou na perfeição.
Recordo, com emoção, a parte lúdica e de ouvir cantar o padre Fanhais e o Zeca Afonso que acabaram a confraternizar connosco. Uma festa e um privilégio.
Também me lembro de ter feito um parto, francamente assustada, mas a fazer-me de forte, com a ajuda imprescindível de umas irmãs freiras. Tudo correu bem e foi uma comoção no final. Até bebemos uma amêndoa amarga protegidas pelo biombo…meio a rir como se praticássemos um pecadilho divino, desculpável, perante o milagre da vida. Seguiu-se o ano do Serviço Médico à Periferia, em Ferreira do Alentejo, onde a responsabilidade acrescida nos permitiu fundamentar experiências e colocar em prática a nossa formação, bem como ouvir ainda mais com outros olhos a realidade, fora do pequeno mundo protegido a que pertencíamos. Aqui, recordo ter organizado uma exposição de fotografia cuja iconografia obtivera em Lisboa, sobre a fome no mundo, imagens tristes mas educativas sobre os direitos da criança, fundamentais para ilustrarem a conferência, que realizámos nas comemorações desse memorável dia 1 de Junho de 1979. Nesse dia a aldeia onde fazia consultas (Figueira dos Cavaleiros) ficou mais rica, diziam-me. E consegui lá levar, gratuitamente, alguém a quem fiquei eternamente grata, o fantástico e discreto Vasco Granja, para comentar no evento, uma sessão de desenhos animados, imaginativos e evoluídos para a época com que nos presenteou, sem faltar a memorável Pantera Cor-de-Rosa. Foi um dia fundamental para todos, mas sobretudo para mim que nunca esqueci o brilho no olhar equivalente, do Vasco Granja e dos pequeninos.
E as pessoas locais, doentes, ou utentes como hoje se diz, com quem nos relacionámos nesse período inesquecível, foram sem dúvida os nossos maiores fãs. Uns jovens médicos cheios de sonhos, risonhos e alegres. O que mais se quereria no cinzento dos tempos?
Muito bom! Nunca esquecerei o meu ERASMUS.
E penso que parte desse tempo deixou um efeito, uma marca em mim, para a vida.

Leonor Duarte de Almeida
Outubro, 2019

Fotografias de Manuel Rosário

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Escrito por

Maria Leonor Duarte de Almeida é oftalmologista em Lisboa - cidade onde nasceu. Mestre e Doutorada em Bioética leccionou na Faculdade de Medicina de Lisboa como Professora Auxiliar em Oftalmologia. A escrita tem tido uma presença na sua vida, mas somente em 2002 se expôs como escritora. Publicou cinco livros de ficção, um livro de ensaio sobre Autonomia em Bioética, em 2008, e viu o seu trabalho reconhecido pela crítica, recebendo o Prémio Revelação da SOPEAM, sendo ainda distinguida como premiada em Novos Autores Portugueses, pelo do IPLB em 2002. É membro da Associação Portuguesa de Escritores.

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