De A a Z, tudo se pode fazer DE OUTRA MANEIRA...
 

Tbilisi (3)

Cidade de muitas caras a meio da História (Continuação)

Noutra ocasião—porque eu estou a misturar duas visitas, ambas encantadoras, afastadas por um ano de distância—passeando mais uma vez entre as casas dos mercadores novecentistas, seguimos os tubos enferrujados da conduta de gás do período soviético. Por sua vez, a conduta segue os edifícios por fora, formando uma espécie de fio de Ariadne, vermelho ferrugem, que liga todas as casas da cidade. Quando chega à porta de um desses edifícios apalaçados, a conduta sobe e logo desce do outro lado, seguindo o seu caminho tortuoso e abagunçado ao nível do joelho do transeunte. De vez em quando, nos bairros mais pobres, a conduta atravessa a rua para chegar a um casebre do outro lado e logo volta a atravessar, fazendo arcos e voltas. Mais adiante a casa já ruiu, mas o tubo de gás segue ainda o perfil do portão que já lá não está. Os carros passam por baixo da tubagem com a segurança de quem já fez aquilo mil vezes. Mesmo assim, não consigo deixar de me perguntar como é que será se, um dia, por distração, um deles decidir transportar uma mesa sobre a capota: Paf!! PUM!! Será? Mas o sistema é antigo e, pelo que parece, continua funcional, apesar de por vezes se poder sentir um cheirinho a gás … A cidade e todas as suas unidades domésticas adaptaram-se há muito a mais esta manifestação da anti-estética supostamente utilitarista dos sovietes.

Numa esquina vemos que um dos armazéns antigos que dá para a rua foi restaurado como loja de vinhos para consumo turístico. Descemos as escadas para uma cave feita de um tijolo alaranjado escuro discretamente iluminado. Passeamos por entre as ânforas onde ainda hoje se continua a fazer vinho na Geórgia—como se os tempos das ânforas que os gregos e romanos herdaram dos fenícios ainda tivesse sobrevivido aqui neste mais longínquo posto do império. Experimentamos vinhos, que são bons, sim, mas que não nos deixam deslumbrados, por muito que a gentil vendedora estivesse genuinamente empenhada em converter-nos. Por fim saímos com umas garrafas de chacha—a aguardente de vinho que é realmente a bebida preferida dos geórgios. Não há refeição onde não se façam pelos menos dez brindes, logo seguidos por mais um copinho de chacha para todos os presentes.
Quando visitámos as terras montanhosas da Tushetia, no Cáucaso Maior, depois de muitas dessas alegres refeições e de muitos brindes, acabámos por desenvolver um gostinho pela chacha geórgia, que pode ser mesmo muito boa (outras vezes menos…). Estas eram boas, por isso acomodámos cuidadosamente as garrafas nas nossas mochilas antes de recomeçar o caminho.

Mais à frente, vamos dar com uma outra dessas estátuas malucas que pontuam a cidade e que nos deixam perplexos. Esta aqui parece ter sido do tempo soviético. É divertida, sobre isso não há dúvida. Uma série de camponeses de bronze, caras de riso alarve, de duas vezes o tamanho natural, dançam energeticamente em roda. Um espaço foi deixado livre, será para que nós também dancemos com eles, pergunta-se a Minnie, prestando-se logo a ser estátua. Uma espécie de celebração da loucura báquica que nunca está muito distante na Geórgia, tanto pela sua via mística como pela sua via orgiástica, um pouco ameaçadora. É isso, afinal, que a santa nacional, a Santa Nino celebra.
Nessa noite fomos convidados por uns amigos a ouvir um recital de poesia no edifício da Academia de Belas Artes no centro da cidade—um palacete onde nos explicam (agora num tom mais recatado, só para nós mesmo) que aqui residiu a certa altura o Beria. A decoração grandiosa recentemente restaurada é agora usada por músicos e poetas que declamam as suas poesias em ritmos lindos que não podemos entender. Mas depois surge um poeta, pelo menos tão bêbedo como os poetas locais. Este vem do Canadá e declama poesias em inglês que não conseguem ter o charme das poesias em geórgio que nós não entendíamos. No jardim interior do edifício alguém toca viola e um velho poeta, que acabámos de conhecer, narra para nossa educação as peripécias da sua vida atribulada entre fumaças de cigarro e goles de cerveja. A atmosfera convivial que domina naquele grandioso edifício novecentista aqueceria o coração de qualquer um—se coração era o que o Beria tinha.

No dia seguinte, entramos na Catedral Sioni, um dos edifícios mais antigos e mais importantes da cidade. Mais alto que largo, grosso por fora mas apertado por dentro, este edifício de pedra clara de tom creme é a marca central do cristianismo geórgio. Lá dentro, por entre os lindos frescos e os muitos ícones bordeados a ouro, vamos encontrando representações da santa fundadora. Vemos até uma cópia em tamanho natural da sua cruz manual, essa relíquia maior que está reproduzida em tantos altares na Geórgia e esculpida em tantas lápides, que é o sinal por excelência da escolha civilizacional dos geórgios. Uma escolha histórica que os posiciona irremediavelmente dentro desse jogo de identidades e civilizações que é a Eurásia interior. Uma escolha pelo Ocidente, que tanto lhes dá segurança como os ameaça. Essa é a mesma escolha que celebram tanto o São Jorge dourado que substitui o Lenin, como as bandeiras da União Europeia.
A Santa Nino foi quem converteu os Geórgios ao cristianismo, ligando-os a Bizâncio. Mas, ao mesmo tempo, foi também quem os converteu ao produto da uva. Vinda do ocidente bizantino, a jovem menina tinha tido uma visão da virgem que lhe tinha dito para ir converter os geórgios ao cristianismo e para lhes ensinar a fazer vinho. Afinal, como pode haver cristianismo sem pão e vinho? E não é isso que a Geórgia continua a oferecer a todas as refeições a todos os dias a todos os que lá vivem? Não dá para esquecer a alegria de sentar a uma mesa em frente ao pão de queijo bem quebradiço, acabado de fazer, acompanhado de um copo da melhor chacha ou de vinho tinto carregado. Aí vai mais um brinde à grande alegria dos georgianos!

Essa menina veio movida pela sua fé, dirigindo-se sempre para oriente até chegar a este vale prometido entre os Cáucasos e converter o rei da época, um tal Mirian III. Nas mãos trazia sempre uma cruz, formada por dois cortes de vinha atados por uma madeixa dos seus próprios cabelos. São esses cortes de cepa que, uma vez plantados, frutificaram nos solos quentes da Geórgia do sul. Na cruz da santa, portanto, o vinho sacramental junta-se com os próprios cabelos da virgem, que estruturam a cruz. O rei, que não queria acreditar na visão sacramental prometida, acabou por ter de se render à evidência depois de ser atingido pela cegueira, da qual só a santa o pode curar. E assim os geórgios viraram cristãos e, ao mesmo tempo, descobriram a porta para uma nova maneira de ser feliz e de se transcender a si próprio: pão e vinho!
Também esta catedral foi maltratrada pelo tal Agha Mahmad Khan, pelos turcos, pelos soviéticos e … enfim, a escolha que a santa trouxe eleva as almas dos geórgios, pelo menos de duas maneiras diferentes, mas, ao mesmo tempo, traz consigo uma enorme fragilidade, porque eles estão perigosamente situados na portela entre o mundo do ocidente e o mundo do oriente, nesse jogo de forças que sempre foi e sempre continuará a ser a grande Eurásia. Bem bom seria podermos saber o que vem aí, agora que estamos a viver mais um desses períodos de incerteza e terror que a história nos propõe com incontornável regularidade, mas infelizmente não temos hoje as certezas que a visão da santa lhe dava! Em tempos era a “modernidade”, depois a “democracia”, mas que podemos nós hoje propor aos geórgios no sentido de os salvar de mais um momento de miséria?

João de Pina Cabral
Março, 2019

Galeria de Imagens

Fotos de Minnie Freudenthal e Manuel Rosário

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Escrito por

Antropólogo social, Investigador Coordenador do Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa. Foi Presidente da Associação Europeia de Antropólogos Sociais entre 2003 e 2005. Entre muitas outras obras é autor de Between China and Europe: Person, Culture and Emotion in Macao. Continuum/Berg, Nova Iorque, 2002 e co-editor com Frances Pine de On the Margins of Religion, Berghahn, Oxford, 2007.

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