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Tbilisi (1)

Cidade de muitas caras a meio da História

Como todas as cidades históricas, Tbilisi não foi feita para olhar o seu próprio umbigo. Pelo contrário, a cidade é o exemplo paradigmático do encontro da Ásia com a Europa; meio caminho entre o Mar Negro—bizantino, grego e arménio—e o Mar Cáspio—russo, iraniano e islâmico. Fechada no vale fundo e afunilado do rio Kura (Mt’k’vari), Tbilisi é a principal portela comercial, cultural e religiosa nesse caminho entre dois mares e entre dois complexos montanhosos. Um percurso que, desde o passado mais longínquo, assistiu a grandes sucessos e chorou grandes derrotas.

O vale central da Geórgia, do qual a cidade é o ponto nevrálgico, divide o Grande Cáucaso a norte, por onde mais ou menos termina a Rússia, das montanhas do Cáucaso Menor a sul, do outro lado das quais domina a civilização islâmica. É nesta série de vales entre os dois Cáucasos que o cristianismo primordial dos arménios confronta a Ortodoxia bizantina; que os Persas confrontam os cristãos; que a expansão imperial otomana pára perante a pujança imperial russa. A Geórgia—e Tbilisi por antonomásia—é um hiato, um espaço liminar na história da Eurásia.
Logo ali no fundo do vale apertado, sobre a passagem onde o rio mais aperta, os cristãos iniciais fundaram um templo: a Igreja da Virgem Maria Metekhi. Para lá chegar, descemos uma calçada íngreme de pedra antiga. A meio da descida, passados uns degraus complicados, entramos numa pequena igreja, cujo formato em cruz traçado em pedra sólida anuncia ainda os finais do século IV, quando Vakhtang I, rei da Ibéria (a deles, não a nossa!) fundou a cidade. Assim, Tbilisi emerge como praça forte no conflito militar entre os Sassanidas da Pérsia e os Bizantinos de Constantinopla; conflito esse durante o qual o rei fundador iria acabar por ser esmagado. Assim, a história desta curiosa igreja—pouco mais do que um patamar sobre a curva do rio—é talvez a melhor introdução a Tbilisi.

Para sumariar a coisa: fundada no século IV, a igreja é refundada no século VII para receber o corpo de São Shashanick; em 1195, é aí que a grande Rainha Tamar, essa glória do povo geórgio, reza antes da que seria a principal batalha do seu reinado; em 1235, ardem tanto a igreja como o castelo à qual era adjacente; reconstruída, é destruída mais uma vez por uma violenta tempestade; muito mais tarde, são os novos reis muçulmanos da cidade que a reconstroem, mas desta vez como armazém de pólvora; em 1690, a igreja e o castelo passam a mãos persas; em 1748, porém, o espaço é mais uma vez consagrado ao culto cristão; mas o Agha Makhmad Khan volta a destrui-lo antes do fim do século; no início do século XIX, o castelo é finalmente arrasado, mas a igreja é restaurada e volta ao culto; só que, em 1922, chegam os soviéticos; o edifício vira clube social, depois museu, depois teatro; mas—e acho que não é possível dizer “por fim”, já que quem sabe o que o futuro trará consigo—em 1988, o edifício volta a ser consagrado como igreja, tal como tinha sido no século IV. Hoje, contudo, pouco mais serve do que o turismo, já que a nova basílica, recém-construída em grande luxo mais acima na encosta norte, com uma vista ampla sobre a bacia do rio, absorve por completo a nova espiritualidade emergente dos geórgios pós-soviéticos.

Por cima de nós passa um teleférico com cabines carregadas de turistas. No lusco-fusco que se espalha sobre a cidade, as máquinas fotográficas produzem flashes intermitentes, alertando para onde se encontram as navetes, enquadradas pela silhueta iluminada das ruínas do velho castelo medieval na crista abrupta da encosta sul à nossa frente. À direita brilham as luzes de uma espécie de Disneylândia cívica: a arquitetura de barroco pós-moderno que representava a utopia do futuro para a elite pós-soviética. Toda aquela arquitetura, caríssima e absurdamente inútil, já está em estado de semi-abandono. Um edifício em forma de corneta metálica dupla é rodeado por um parque onde a principal estátua cívica (mas será ela cívica mesmo?) é a réplica de um piano de cauda branco de dez vezes o tamanho natural!
A ponte de painéis de vidro iluminado que liga esse parque à margem sul do rio, onde se desenha o elegante centro da cidade do período romântico, brilha durante a noite, pontuada por um ritmo constante de turistas e gente local que se auto-fotografa alegremente. Ao longe, em cima do barranco íngreme que fecha a cidade a sul, espalha-se mais uma maravilha pós-moderna: o palácio de vidro construído por um presidente enlouquecido pela fortuna rápida da corrupção pós-soviética. Mais parece o hangar de um aeroporto montado improvavelmente sobre a crista íngreme de uma colina do que um palácio—sem sentido, sem elegância, sem relevância a não ser a fortuna que foi roubada ao cidadão comum da Geórgia para celebrar a glória pessoal de um bandido sem vergonha.

Já noite caída, pendurados ainda sobre o rio no patamar da igreja Metekhi, com o centro novecentista de Tbilisi à nossa direita, olhamos diretamente para o vale fundo por trás do qual se expande a mancha escura do que é hoje o encantador Jardim Botânico da cidade. A meio da colina, deparamo-nos com as marcas arquitetónicas claramente diferenciadoras do bairro otomano. As casas, recém-restauradas para fins turísticos, demonstram claramente a sua herança.
Depois atravessamos a ponte antiquíssima e encontramo-nos sem grande transição sentados no interior luxuoso dos banhos quentes do quarteirão otomano. Fechados agora no espaço sobreaquecido e escuro, temos a sensação que a história nos cobre como se fosse um manto grosso e sulfúrico. De repente, submergimos não só na água quente destas piscinas antigas mas também numa espécie de eterno presente constituído pelas várias faces da cidade. As forças milenárias que ali se debatem misturam-se, sem nunca se integrarem, num grosso caldo histórico onde também jogamos a nossa parte. Afinal, percebemos que o conflito que esmagou o rei Vakhtang I no século IV, ainda não acabou.
E depois saímos para a noite, passando ao lado do vale fundo do riacho que desagua no Kura. Mas somos parados pelo eco enorme do cantar rítmico das rãs. Nunca noutro local tinha eu ouvido rãs cantarem com a pujança de um barítono de Rossini. Ficámos ali surpresos, suspensos sobre uma pequena ponte, ainda quentes do banho, imersos num mundo que já não é otomano mas que nunca mais será puramente cristão, que já não é medieval mas que se rirá sempre da modernidade, da pós-modernidade e do que ainda por aí vier. Lentamente, as nossas narinas são penetradas por um chamamento urgente: pão quente com queijo de ovelha derretido e carne grelhada. Os restaurantes para turistas sabem como provocar a fome em quem não a tem.

E, subindo uma rua em arco, estamos agora na praça principal da cidade. Passamos da Turquia à Europa sem meio termo, numa sequência urbana que faz lembrar Sarajevo—uma cidade com uma alma parecida a esta, mas do lado oposto da zona de expansão otomana. Ora, tal como esta última, Tbilisi é um palco de guerras em curso. A Geórgia, posicionada no centro do torvelinho que é o grande continente euroasiático, continuará para sempre a ser território disputado: por ali passa hoje a nova Rota da Seda de Xi Jingping, como já antes passava a anterior de Genghis Kahn. Muito antes disso, porém—muitos milénios antes, de facto—já assim era. Foi das montanhas a norte de Tbilisi que saíram as hordas caucasianas dos protoindo-europeus, que espalharam brutal e militarmente a sua civilização guerreira e a sua língua pelo ocidente e sul do grande continente euroasiático, desde Portugal aos confins da Índia.
Hoje, a luta continua: no centro da praça deparamo-nos com um enorme pilar sobre o qual se destaca uma estátua excessivamente dourada. Os edifícios em toda a volta lembram o estilo arquitetónico dos Augsburg que os russos também praticavam, mas as bandeiras que vemos são da União Europeia! No topo da coluna esteve em pé, por muito tempo, Lenin. Recentemente, porém, substituíram-no por um São Jorge matando o seu dragão. Será porque a estátua de São Vladimir já de si era desproporcionadamente agigantada, que a presente estátua do santo também o é? Todo aquele palco político protesta demasiado; tudo aquilo, desde o Hilton Hotel com as limosines à porta, às lojas dos joalheiros multinacionais, constitui um grande palco de mensagens contestadas.

O nome inicial da praça na década de 1870 era o de um façanhudo general ucraniano, muito prezado dos russos que por ali estavam protegendo os geórgios e os arménios da violência turca. Depois, na década de 1920, a praça assumiu o nome de um dos mais importantes compatriotas geórgios—Lavrentiy Beria, o espantosamente terrível verdugo de Estaline que, tal como este último, também era geórgio de nascimento, alma e coração. Essa é uma herança que o país hoje tem alguma dificuldade em saber digerir. Tanto pela descomunal sanha homicida como pelo génio administrativo, são ambos figuras que a história jamais esquecerá. Por isso, quando Estaline finalmente morreu, a praça passou a chamar-se Lenine. E, depois, quando na década de 1990 a independência voltou, a praça mudou para “da Liberdade”. É todo esse desejo de liberdade que celebram as incongruentemente numerosas bandeiras da União Europeia—flutuando alegremente em fila logo ali na principal via urbana de Tbilisi, à porta da Assembleia Nacional. Infelizmente, hoje sabemos que o otimismo dos anos 90 não ia ter muito futuro.
Pendurada sobre a crista do monte, por cima do Jardim Botânico, reconhecemos o brilho da igualmente despropositada estátua da Mãe Geórgia—belicosamente pintada de metal prateado, com uma malga acolhedora na mão esquerda e uma espada dissuasora na mão direita cobrindo a zona genital. Agora que o jogo dos impérios está pronto a recomeçar, é fácil ter simpatia pela ansiedade dos geórgios, que o despropositado de mais esta estátua tão bem ilustra.

João de Pina Cabal
Fevereiro, 2019

Fotos de Minnie Freudenthal e Manuel Rosário

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Escrito por

Antropólogo social, Investigador Coordenador do Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa. Foi Presidente da Associação Europeia de Antropólogos Sociais entre 2003 e 2005. Entre muitas outras obras é autor de Between China and Europe: Person, Culture and Emotion in Macao. Continuum/Berg, Nova Iorque, 2002 e co-editor com Frances Pine de On the Margins of Religion, Berghahn, Oxford, 2007.

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