De A a Z, tudo se pode fazer DE OUTRA MANEIRA...

O poder da usura ininterrupta é demasiado. Se o gradual crescimento de juros acumulados por gerações não for restringido, metade da população ficará pouco mais do que escrava da outra metade.

                               J.M.Keynes A Tract on Monetary Reform 

O problema parece estar no aforro. Se os lucros das companhias e dos cidadãos abastados fosse gasto em palácios, pirâmides, frotas de iates ou no que quer que seja, gerariam, inevitavelmente, empregos e a procura agregada seria mantida, os circuitos de compra-venda operantes garantiriam o normal funcionamento da sociedade. O desvio dos lucros do cidadão e das firmas, para fora do circuito do consumo, leva a uma acumulação de capitais progressiva, ultrapassando as necessidades de investimento real em factores produtivos. Para resolver este problema, durante a depressão nos anos 30, o burgomestre de Worgl (uma cidadezinha na fronteira austro-alemã), baseado nas teorias económicas de Sylvio Gesell, introduziu uma moeda local que automaticamente perdia valor ao longo do tempo, penalizando o aforro. O resultado foi desemprego zero, estradas e edifícios novos, uma revolução local. Durou pouco, o governo acabou com a experiência ao fim de dois anos.

Um fenómeno parecido acontece num país, na fase intermediária dum período de hiperinflação. Todo o dinheiro ganho é gasto. Há uma actividade económica frenética e esquizofrénica. As firmas têm lucros nominais excelentes porque os custos de produção assumidos no passado são facilmente cobertos pelos inflacionados preços de venda no presente. E se a desvalorização no mercado cambial for superior à desvalorização interna, os outros países procuram os produtos baratos nacionais e as exportações aumentam. Para esta actividade são precisos trabalhadores e o desemprego é baixo. O capital produtivo (imóveis, fábricas) aumenta, os rendimentos do governo aumentam porque os impostos são progressivos e com a inflação dos salários todo o contribuinte acaba nos escalões fiscais mais elevados. Mas os pensionistas e credores ficam sem nada. A hiperinflação é má, mas a maior parte dos economistas defende a utilidade duma inflação moderada 4-5%. Catástrofe é a deflação, descida de preços, pelos mecanismos acima citados, girando ao contrário. Mas isso é outra história…

A escravização do devedor adquire múltiplas facetas. Um exemplo são os Student Loans americanos. Desde que se descobriu que o ensino superior podia ser um negócio, aumentaram as propinas e custos, levando milhares de estudantes a endividarem-se até ao pescoço. A dívida somada ronda agora um trilião de dólares. Como com a crise actual não há empregos, o número de delinquências nos pagamentos é enorme. Milhares ficam com o cadastro financeiro destruído, impossibilitados de comprar o que quer que seja a crédito (o que quer dizer quase todos os bens duráveis). E quando a economia retomar, em vez de gastarem os salários em coisas e serviços e contribuírem, assim, para a procura agregada, ficarão a pagar a dívida aos bancos e sem recurso alternativo, visto não ser possível abrir falência pessoal em caso de dívida estudantil.

O capital acumulado excede de longe a capacidade de absorção da economia real (investimentos não financeiros em meios de produção). Para manter o carrocel em andamento, a caridade é um recurso. Juntem-se uns bilionários e crie-se um firma com a finalidade de ajudar o próximo. Os proventos por trás das doações são livres de impostos. O dinheiro doado é injectado na bolsa, capitalizando as companhias de que os doadores são proprietários. Os dividendos são aplicados em projectos esdrúxulos e bizantinos de carácter publicitário. E toda a gente sorri para a foto comemorativa. É preciso ter sempre em conta a opinião pública (que, como toda a gente sabe, não passa dum eco).

A balança comercial dos alemães é mais que positiva e eles não sabem o que fazer ao dinheiro. Depois de importarem tudo o que precisam, sobra-lhes tanto, que não têm outro remédio senão comprar a dívida de outros países, permitindo a estes países comprar o que a Alemanha exporta. Bancos e fundos de pensões alemães emprestaram a bancos irlandeses, espanhóis, gregos e portugueses, que por sua vez emprestaram aos cidadãos para estes comprarem casas, porches, BMWs, etc. Quando a crise eclodiu, as hipotecas e garantias dos empréstimos perderam valor, os cidadãos deixaram de pagar, e os bancos viram-se com dívidas que também não podiam redimir (ninguém pode, no entanto, tocar nos depósitos que os ricos e empresas dos respectivos países puseram no estrangeiro, com montantes totais no geral superiores à dívida de cada país). Daí as injecções financeiras aos bancos nacionais para salvar os fundos de pensões alemães, que não esperam sofrer as consequências de um mau investimento, de que são tão responsáveis como os cidadãos endividados no fundo da cadeia financeira alimentar. Ao cidadão nacional só resta pagar as consequências, com uma austeridade que só levará a uma espiral descendente em termos de macroeconomia. No fim, terá que vender o Partenon, os Jerónimos, o Escorial e/ou o território nacional. Ou alugar, como estão os africanos a fazer com os chineses. Só se espera que os nacionais não sejam expulsos e os alemães se mudem cá para baixo, como fazem os chineses em África. No fim, isto é uma revolução planetária e o fim das nacionalidades. Uma nova idade média. E com a pauperização das massas será o fim deste consumismo desenfreado e talvez do aquecimento global. Não será tudo mau. E isto é também um ajustamento a todas as novidades dos últimos vinte anos, internet, Google, etc. A única coisa certa, a curto prazo, será a instabilidade social geral. Façam turismo em lugares exóticos o mais depressa possível. O que aí virá a médio prazo, só os oráculos diriam, se não tivessem sido desactivados há dois mil anos.

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Alguns Números:

. Um milhão de segundos são 12 dias, um bilião 32 anos e há um trilião de segundos ou 32 mil anos, ainda os neanderthal se passeavam na Europa.

. Antes da crise em 2008 as reservas bancárias nos EUA eram de 41 biliões de dólares. Em 2009 eram de 900 biliões. Correntemente são de 1,4 triliões de dólares. Uma subida de 1 para 34.

. Nos finais de 2010 os chineses tinham 2,85 triliões de dólares em bancos americanos. Aos preços da altura seria quantia suficiente para comprar todas as dívidas de Espanha, Irlanda, Portugal e Grécia. E ainda lhes sobraria mais de metade do dinheiro. Ou poderiam comprar a Apple, Microsoft, IBM e a Google por menos de um trilião. Com os trocos poderiam comprar as mais caras 50 equipas desportivas mundiais por apenas 50 biliões, todo o imobiliário rentável de Manhattan por 287 biliões. Por 1,87 triliões poderiam comprar toda a superfície arável dos EUA. Por 1.9 triliões comprariam o Departamento de Defesa americano incluindo edifícios e todo o equipamento militar (como armamento, aviões, porta-aviões, etc). (The Economist April 16,2011). É claro, que mal as compras começassem, o dólar cairia na vertical e os chineses acabariam por gastar o último bilião de dólares num T2 em Brooklyn.

. Mas tudo isto é para mostrar que estes números são números contabilísticos, financeiros, bancários, pouco têm a ver com a economia real. E as sumidades mundiais que se reúnem anualmente em Davos, na Suíça, não fazem ideia como desenrascar o sistema, como deslindar as teias de dívidas alavancadas que estão a matar a galinha dos ovos de ouro, que é a economia mundial em normal funcionamento, a base de sustento dessa mesma elite.

Tempos excitantes !!!!

José Luís Vaz Carneiro
Solipso52@hotmail.com
Novembro, 2012

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Fotos de Minnie Freudenthal e Manuel Rosário

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Escrito por

Médico Hospitalar (EUA)

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